O Caderno de Contas
O escritório do meu pai cheirava a mofo e a uma teimosia antiga. Deixei minha maleta de couro sobre a mesa, o design minimalista contrastando com a madeira carcomida pelo cupim — um lembrete físico da distância que eu tentava, inutilmente, manter. Eu só precisava de três documentos: a escritura, a certidão de óbito e o inventário. O resto era ruído.
Meus dedos roçaram a capa preta desbotada do caderno que Dona Zezé me entregara. Abri-o com um desdém calculado, esperando listas de compras ou nomes de devedores locais. Em vez disso, encontrei uma caligrafia nervosa, entremeada por códigos numéricos que seguiam uma lógica financeira arcaica.
Setembro, 12.500. Remessa Z. Prazo de liquidação: 48h.
Franzi a testa. O valor não batia com a falência declarada; era uma movimentação de capital que meu pai, um humilde aposentado, jamais poderia sustentar legalmente. Virei a página e o ar pareceu rarear. Uma entrada datada da véspera do funeral trazia o mesmo endereço que constava na notificação de despejo que eu encontrara na correspondência oficial. Isso não era uma falência; era uma liquidação forçada.
A cozinha, centro das decisões morais daquela casa, cheirava a café requentado e tabaco. Dona Zezé não esperou convite. Ela empurrou o caderno pelo tampo de fórmica, o atrito soando como uma sentença.
— O courier não sumiu por acaso, Lucas. Ele foi apagado — disse ela, a voz sem luto, apenas com uma urgência gélida. — Seu pai não era um simples fiador. Ele era o coração de um sistema que mantinha esse bairro de pé quando os bancos nos ignoravam. O fundo de reserva desapareceu, e o código que você está lendo é o mapa de quem traiu quem.
— Eu não sou um contador de rede clandestina, Zezé. Eu vim para assinar o inventário e fechar a casa — retruquei, tentando manter o tom pragmático de quem analisa um ativo tóxico.
— O problema, meu filho, é que o perigo não vem de fora. Ele frequenta o mesmo círculo que você agora é obrigado a habitar. O traidor conhece o código. Ele sabe que você tem o caderno.
O ruído da britadeira na rua de cima era um soco rítmico no estômago. Tiago apareceu na porta, impecável em um linho que destoava da poeira da casa. Ele observou o caderno em minhas mãos com uma rapidez predatória antes de abrir um sorriso carismático.
— O inventário é uma dor de cabeça, eu sei — disse ele, gesticulando para as caixas de papelão. — Mas o bairro mudou. A especulação aqui virou febre. Vender o terreno da família não é apenas um negócio, é um favor que você faz a si mesmo. Você poderia quitar qualquer pendência e voltar para Londres.
— Meu pai não era um homem de deixar pontas soltas, Tiago. Por que você está tão interessado no fundo de reserva que não consta nos documentos oficiais? — perguntei, sentindo o peso do couro contra meu corpo.
Tiago não respondeu. Ele apenas me conduziu até o carro de luxo parado na esquina. O estofado cheirava a algo caro e artificial.
— Você não entende, Lucas — ele começou, a voz polida. — Esse bairro é um navio afundando. Seu pai passou a vida tentando tapar buracos com papel. Estou oferecendo um bote salva-vidas. O valor que depositei na sua conta offshore, assim que você me entregar esse caderno, é o suficiente para você esquecer que esse CEP existe.
Olhei pela janela. Dona Zezé estava na calçada, observando. Se eu entregasse o caderno, o bairro morreria. Se eu ficasse, eu seria o próximo alvo de uma caçada que eu nem sabia como começou.
— O caderno não é um título de propriedade, Tiago — respondi, sentindo o pulso acelerar. — É um registro de dívidas. E eu não pretendo perdoar nenhuma delas.