A Armadilha do Passado
O escritório de Ricardo Bittencourt, no trigésimo andar, era um monumento ao controle. O ar condicionado mantinha a temperatura em um nível clínico, e o cheiro de sândalo e papel antigo era o perfume da autoridade. Elena entrou sem bater, o impulso de verificar a segurança de sua bolsa superando a etiqueta social que ela, como assistente e agora noiva de fachada, deveria observar.
Ricardo estava de costas, parado diante da mesa de mogno. Sobre a superfície polida, o envelope pardo que Elena acreditara ter escondido com segurança absoluta estava aberto. A aba fora rasgada com uma precisão cirúrgica.
O coração de Elena deu um solavanco, mas ela forçou o corpo a relaxar. A dignidade era sua única armadura.
— Você tem o hábito de revirar as coisas dos outros, Ricardo? — A voz dela saiu firme, desprovida da trepidação que sentia na base da espinha.
Ricardo virou-se lentamente. Ele segurava uma folha de papel com o timbre de um escritório de advocacia especializado em custódia familiar. O nome "Leo" saltava aos olhos dele, um ponto de interrogação que parecia queimar o papel. O olhar que ele lançou a Elena não era de fúria, mas de uma curiosidade gélida, um cálculo que a fez sentir-se exposta como nunca estivera nos anos de seu isolamento.
— Documentos de custódia, Elena? — Ricardo deu um passo em direção a ela, o tom de voz baixo, perigosamente controlado. — Não me lembro de termos incluído "filhos de relacionamentos passados" nas cláusulas de confidencialidade do nosso contrato.
Elena sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas o instinto de sobrevivência, mais forte que o terror, assumiu o controle. Ela não recuou.
— É um documento antigo, Ricardo. Irrelevante para o nosso contrato — ela disse, aproximando-se com passos deliberadamente lentos. Ela precisava alcançar a mesa, precisava arrebatar aquele envelope antes que ele lesse a data de nascimento ou o nome do pai biológico. — São questões de caridade que gerencio para uma antiga conhecida. Não é da sua conta.
Ricardo riu, um som seco que não atingiu seus olhos. Ele guardou o envelope na gaveta principal e a trancou com um clique metálico.
— O fato de você estar tão nervosa torna tudo da minha conta. A partir de amanhã, você se muda para a minha residência oficial. A logística do noivado exige proximidade, e eu prefiro ter meus ativos — ele pausou, o olhar descendo pelo corpo dela — sob vigilância constante.
Elena tentou protestar, mas ele a cortou com uma oferta de compensação financeira imediata para o bem-estar de sua família, um gesto que ela interpretou como uma coleira de ouro. Ela não podia lutar contra a holding sem se expor, e a necessidade de proteger Leo a forçou a aceitar sob protesto silencioso.
Três dias depois, a mansão Bittencourt era uma gaiola de luxo. Enquanto Ricardo estava em uma conferência, Elena aproveitou a brecha para invadir o escritório privado dele. Seus dedos tremiam ao revirar as gavetas, mas o que ela encontrou foi pior: um dossiê detalhado sobre sua vida, rastreando cada cidade onde ela morou desde que fugira anos atrás. Ele não estava apenas a investigando; ele estava obcecado.
De repente, a porta se abriu. A Sra. Bittencourt entrou, seus olhos de falcão percorrendo a cena com uma eficiência impiedosa.
— Ricardo, espero que não esteja perdendo tempo com papéis... — ela parou, focando em Elena, que estava com uma pasta na mão. — Você. Elena. A assistente que subiu de cargo tão rápido quanto subiu nos braços do meu filho. O que exatamente você esconde nesse seu passado vazio?
Elena sentiu o suor frio percorrer sua espinha. Ricardo apareceu atrás da mãe, observando a cena com um olhar que misturava suspeita e uma proteção possessiva que ela não sabia como decifrar. Ela precisava mentir, e precisava ser convincente, ou a máscara cairia ali mesmo.