Moeda de Troca: Piedade e Desejo
O ar-condicionado do Hotel Unique era um luxo que Elena não podia pagar, mas que o contrato de Ricardo exigia que ela habitasse. O vestido, uma peça de seda escura que ela alugara com o último resquício de seu fundo de emergência, parecia uma armadura fina demais para a guerra que se desenrolava no salão de baile.
— Lembre-se, Elena — Ricardo murmurou, a voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse, mas carregada de uma autoridade que a forçava a manter a postura. — Você não é uma convidada. Você é o meu ativo mais valioso esta noite. Não o desperdice com hesitação.
Elena sentiu o peso do olhar dele. Ricardo Bittencourt não a olhava como um homem olha para uma mulher; ele a inspecionava como um acionista avalia uma empresa em risco de falência. A cada passo que davam pelo salão, os sussurros da elite paulistana — um zumbido constante de predadores — pareciam aumentar. Ela era a assistente que, da noite para o dia, tornara-se a noiva do homem mais cobiçado da cidade. O escândalo era um banquete para eles.
Um fotógrafo, posicionado perto da escadaria, disparou o flash. A luz branca cegou Elena por um segundo, e, antes que ela pudesse recuperar o equilíbrio, Ricardo enlaçou sua cintura. O toque foi possessivo, deliberado, colando-a contra o corpo dele. O calor que emanava de Ricardo era um lembrete brutal de que, para o mundo, ela era propriedade dele. Para o contrato, ela era a peça que faltava para a sucessão da holding.
— Ricardo, querido — a voz de Beatriz cortou o ar, carregada de um veneno polido. A socialite aproximou-se, os olhos varrendo Elena com um desdém calculista. — Um noivado? Todos esperavam um anúncio de fusão corporativa, não um romance de conveniência. Ou será que a crise na holding é tão profunda que você precisa de um rosto novo para distrair os investidores?
Elena sentiu o segredo de Leo — o peso de sua existência, escondido em um apartamento alugado a quilômetros dali — pulsar em seu peito. Ela não podia reagir com raiva; a raiva era um luxo que ela não possuía. Ela precisava ser a imagem da compostura.
— A surpresa de Beatriz é sempre o melhor termômetro do meu sucesso, não acha, Ricardo? — Elena respondeu, mantendo o tom equilibrado, a voz como um fio de navalha. — Se o mercado está distraído, é porque o plano está funcionando exatamente como previsto.
Beatriz estreitou os olhos, mas antes que pudesse retrucar, Ricardo apertou a cintura de Elena, um gesto que silenciou a socialite instantaneamente. Ele não precisou dizer uma palavra; a proteção pública era uma demonstração de poder que custava a ele a imagem de solteiro inalcançável. Era um investimento caro, e Elena sabia que ele cobraria cada centavo.
Mais tarde, na varanda privativa, o silêncio era denso, pontuado apenas pelo som distante da orquestra. Ricardo a soltou, ajustando os punhos da camisa com uma precisão metódica.
— Você não precisava ter feito aquilo — Elena disse, a voz firme, embora o coração ainda martelasse contra as costelas.
Ricardo a encarou, os olhos escuros percorrendo o rosto dela com uma intensidade que beirava o cinismo. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Elena, forçando-a a recuar até que suas costas encontrassem a balaustrada fria de metal.
— A reputação da minha noiva é um ativo do contrato, Elena — ele respondeu, a voz carregada de uma autoridade gélida. — Se você é atacada, o meu investimento perde valor. Não confunda proteção com gentileza. O contrato, que você assinou como um escudo, transformou-se em uma coleira. Entendido?
Ela assentiu, sentindo o peso daquela verdade. De volta ao carro blindado, o silêncio era opressor. Ricardo deslizava os dedos pela tela do smartphone com uma cadência metódica, monitorando a repercussão da foto que já circulava nas colunas sociais.
— O fotógrafo que nos flagrou na varanda — Ricardo disse, sem desviar o olhar do aparelho. — Ele não trabalha para a grande imprensa. É um freelancer especializado em escândalos de nicho. Amanhã, a história será muito mais detalhada do que apenas um noivado.
Elena forçou a voz a soar neutra, embora o medo de que o nome de Leo surgisse em qualquer investigação a consumisse. — E isso importa? O contrato exige que sejamos vistos como um casal. O resto é ruído.
Ele finalmente a encarou, com uma faísca fria nos olhos. O carro estacionou. Assim que subiram para o escritório privado, Ricardo encontrou um envelope lacrado sobre a mesa, com menções a documentos de custódia que Elena reconheceu instantaneamente. Ela entrou na sala exatamente no momento em que ele abria o selo, o ar sumindo de seus pulmões ao ver o nome de Leo impresso na primeira página do relatório.