Ascensão das Ruínas
O ar na Câmara de Drenagem não era mais o de uma sala de máquinas; era o de um campo de batalha pós-cataclismo. O metal das paredes, antes frio e industrial, vibrava com uma frequência insuportável. O sistema de drenagem, o coração que bombeava a escassez para os níveis inferiores, estava morto. Mestre Vane não estava mais ali, mas seu sacrifício — o selo de contenção rompido — sangrava energia pura como uma ferida aberta na realidade da torre.
Kaelen sentiu o impacto no núcleo. Sua contagem de energia, antes estabilizada em 72 unidades, saltou para 105. A pressão forçava as paredes de seu espírito, ameaçando estilhaçar seu cultivo. Ele cambaleou, o artefato de blindagem em sua mão emitindo um brilho opaco enquanto tentava processar o excesso. Se não canalizasse aquilo, a sobrecarga o transformaria em cinzas antes que os Guardiões chegassem ao 36º andar.
— Kaelen, pare! — A voz de Lívia cortou o caos. Ela estava encostada em um pilar, o rosto pálido, segurando a própria lateral. — O sistema está em feedback destrutivo. Se você tentar absorver isso, a estrutura do andar vai ceder com você dentro.
Kaelen não respondeu. Ele não podia se dar ao luxo da prudência. O cronômetro da auditoria, restando apenas seis dias, não pausaria só porque a academia estava desmoronando. Ele viu a oportunidade: a energia não era apenas uma ameaça, era um recurso bruto esperando por um mestre. Ele mergulhou no fluxo, forçando o artefato a comprimir o caos em algo que ele pudesse carregar. A dor foi um chicote de fogo, mas quando a poeira baixou, seu núcleo pulsava com uma densidade que ele nunca ousara imaginar.
Nas ruínas do Setor de Manutenção, o cheiro acre de ozônio e isolante queimado ainda pairava. Lívia surgiu das sombras de um condutor colapsado. O desdém que antes servia como sua armadura social havia sido substituído por uma urgência gélida.
— Você destruiu o contrato da torre, Kaelen — disse ela, os olhos fixos no núcleo dele. — Os Guardiões não vão auditar os registros; eles vão purgar o nível. Se você não me der acesso imediato ao que extraiu da câmara, serei a primeira a ser sacrificada pela sua incompetência.
Kaelen sentiu o peso do cristal de memória no bolso, o artefato que Vane lhe entregara. — A ineficiência não é minha, Lívia. É do sistema que você protege. Isso aqui prova que a escassez era uma farsa deliberada. A energia não estava sumindo; ela estava sendo desviada para o topo. Você quer sobreviver? Então pare de servir aos carcereiros e comece a escalar comigo.
Lívia hesitou, a lealdade à linhagem lutando contra a evidência bruta em suas mãos. Finalmente, ela assentiu, entregando os códigos de acesso restrito. Eles se infiltraram no Centro de Controle enquanto os Guardiões, cegos pelo caos, ainda vasculhavam os andares inferiores. Kaelen utilizou a técnica banida de compressão de mana para mascarar sua assinatura energética, escondendo sua ascensão dentro do ruído residual da falha sistêmica. O esforço drenou quase todos os seus recursos, mas o sistema registrou Kaelen como um estudante de nível mediano. Eles estavam seguros, por enquanto.
Eles alcançaram o terminal central, uma necrópole de dados onde a verdade finalmente se revelou. Lívia operava os painéis com uma precisão febril.
— O sistema não foi feito para controlar o fluxo de mana — ela sussurrou, a voz perdendo a arrogância habitual. — Ele foi feito para selar o que está acima.
Kaelen olhou para a representação holográfica da Torre. O mapa, que ele sempre acreditou ser um cilindro terminado no 100º andar, revelava agora uma estrutura fraturada. Acima do Nível 50, a densidade de energia não caía; ela se tornava exponencialmente mais densa, um oceano de mana pura que a Academia drenava para manter os estudantes presos em uma escassez artificial.
O chão tremeu novamente, não por uma falha, mas por um despertar. A energia fluiu através das colunas da torre, subindo como uma maré. Kaelen olhou para o teto do observatório, que se abriu para revelar uma estrutura de ascensão que continuava muito além do que qualquer um imaginava. O jogo de mercado havia acabado; a guerra pela ascensão real estava apenas começando.