Dívida de Sangue e Aço
O ar na câmara de julgamento do Andar 10 não era apenas rarefeito; era uma sentença. O zumbido dos selos de contenção vibrava nos dentes de Kaelen, um lembrete constante de que, em Aethelgard, a dignidade era medida em miligramas de mana. À sua frente, o painel de cristal exibia o veredito em letras âmbar, frias e definitivas: Nível 1. Estagnado.
— Kaelen, sua permanência nesta Academia é um erro contábil — a voz do Juiz Vane cortou o silêncio, desprovida de qualquer traço de empatia. — O conselho não subsidia ineficiência. Você está rebaixado ao nível de mineração. O transporte de carga parte ao pôr do sol.
Lívia, sentada na bancada elevada dos prodígios, soltou um riso curto, seco como papel velho. Ela não se deu ao trabalho de olhar para ele; seus olhos estavam fixos na própria aura de Nível 4, uma chama estável e impecável que iluminava seu rosto com uma arrogância meritocrática.
— É uma pena, Kaelen — ela comentou, a voz carregada de um desdém polido. — Alguns nasceram para subir a torre, outros para servir de lastro. Aproveite a vista do fundo. É o único lugar onde você não atrapalha o fluxo.
Kaelen não respondeu. Seus dedos, escondidos sob a túnica puída, apertaram o compartimento secreto na lateral da coxa. Ele não aceitaria o exílio. Se o sistema exigia pureza, ele daria a ilusão da perfeição. Ele tateou o estabilizador de resíduos — um artefato proibido, uma sucata alquímica que ele resgatara do lixo industrial — e o pressionou contra a superfície do sensor.
O dispositivo aqueceu instantaneamente, uma energia instável e faminta que fez o ar ao redor tremeluzir. No momento em que o artefato tocou o painel, uma vibração sibilante percorreu a câmara. As luzes de medição, antes estagnadas, dispararam. O painel mudou de âmbar para um violeta doentio, os números subindo freneticamente: 20... 35... 50. O Juiz Vane inclinou-se para frente, os olhos estreitados em uma confusão técnica.
Kaelen manteve a postura, embora o suor frio escorresse por sua espinha. O estabilizador não estava apenas mascarando sua falha; ele estava forçando sua energia a um estado de densidade perigosa, um curto-circuito no sistema de monitoramento da torre.
— Uma oscilação? — murmurou o Juiz, hesitando com a pena de expulsão em mãos. — A leitura é... atípica. Nível 5, instável.
— É potencial bruto, senhor — Kaelen respondeu, a voz firme, apesar da dor lancinante que o artefato causava em seu braço.
O Juiz suspirou, frustrado pela anomalia que não podia ignorar, mas que não ousava validar. — Sete dias. Você tem uma semana para estabilizar esse núcleo ou será expulso sem direito a apelo. Saia.
Kaelen não esperou. Ele saiu da câmara, atravessando os corredores luxuosos da torre em direção ao Andar 1, onde o ar tinha gosto de ozônio e ferrugem. O Bazar dos Excluídos era seu único refúgio. Lá, ele encontrou Mestre Vane, um instrutor decadente que negociava segredos entre as sobras dos alquimistas.
— Você sobreviveu — Vane murmurou, sem erguer os olhos da bancada encardida. — Mas o selo está fraturado, Kaelen. Você forçou o artefato. Na próxima inspeção, o rastreador de mana vai acusar a fraude. Por que arriscar tanto?
Kaelen colocou o dispositivo sobre a mesa. — Não foi uma farsa, Vane. Foi um teste de estresse. O artefato não apenas mascarou minha deficiência; ele comprimiu a energia, forçando-a a um estado de densidade superior. Eu não preciso de mais tempo. Preciso de capital para converter essa compressão em um núcleo real antes que o efeito desapareça.
O velho mentor parou de limpar sua lente e finalmente olhou para Kaelen. O interesse em seus olhos era predatório. — Se o que diz é verdade, você descobriu como reverter a degradação usando a própria pressão da torre. Isso é proibido, garoto. Os Guardiões não permitem que o lixo seja reciclado em poder.
— Então me ajude a vender esse segredo ou a refiná-lo — Kaelen retrucou. — Ou prefere ver a única aposta que você tem ser expulsa para as minas?
Vane soltou um riso seco e aceitou o artefato, mas seu rosto endureceu. — Eu farei o negócio, mas o preço não é dinheiro. É um segredo que coloca você na mira dos Guardiões. Eles vigiam cada ciclo, Kaelen. Se você subir, eles vão notar.
Ao retornar ao seu dormitório no Andar 2, Kaelen sentiu a pressão da torre esmagar seus pulmões. O artefato estava em sua mão, brilhando com rachaduras arroxeadas. Ele sabia a verdade agora: a escassez não era um acidente, era um mecanismo. Ele fechou os olhos e tocou sua própria mana na peça. A dor foi imediata, uma agulha de fogo perfurando seu meridiano, mas quando ele abriu os olhos, o número em seu visor pessoal de pulso saltou de 47 para 62.
A sentença foi dada: sete dias para pagar ou ser exilado. Kaelen olha para o artefato quebrado em sua mão e sorri. A escada não era feita de mérito, era feita de risco, e ele acabara de encontrar o primeiro degrau.