Chapter 10
O ar na UTI do Hospital Viana era rarefeito, saturado pelo odor metálico de desinfetante e o zumbido monótono dos monitores. Para Roberto Viana, aquele som não era apenas um sinal vital; era a contagem regressiva de sua própria irrelevância. Lucas, parado ao lado do leito, segurava o prontuário digital como se fosse uma sentença de morte. Roberto, o titã que movia o mercado com um aceno, agora tentava se erguer, os olhos injetados de raiva buscando qualquer falha no semblante do sobrinho que ele um dia descartara como um erro administrativo.
— Saia daqui, Lucas — sibilou o patriarca, a voz falhando contra a máscara de oxigênio. — Não preciso que um estagiário brinque de médico. Chame o Dr. Arantes. Agora.
Lucas não se moveu. Ele checou o relógio, o movimento preciso e frio funcionando como um insulto deliberado à urgência trêmula de Roberto. Quando o monitor emitiu um aviso de arritmia, Lucas dispensou a enfermeira com um gesto seco. Ele era o único ali que compreendia a verdade: a instabilidade de Roberto era a metáfora perfeita para a falência do sistema que ele representava.
— Arantes não virá, tio — disse Lucas, a voz desprovida de qualquer calor familiar. — Ele está ocupado demais tentando apagar os rastros da dosagem de anticoagulante que ele autorizou sob suas ordens. Se ele colocar os pés aqui, o que eu tenho guardado no meu servidor pessoal será entregue à Polícia Federal antes que o seu batimento cardíaco se estabilize. O senhor não está mais no comando. O senhor é apenas um paciente sob minha tutela.
A derrota brilhou nos olhos de Roberto. Ele tentou articular uma ordem, mas o corpo, traído pela própria arrogância, forçou-o a recuar. Ele estava, pela primeira vez em décadas, à mercê da competência daquele que ele sempre desprezou.
No corredor, Beatriz aguardava, a silhueta elegante recortada pela luz fria. Ela não perdeu tempo. Ao ver Lucas, entregou-lhe um tablet com o log de transações da holding.
— O conselho convocou uma reunião de emergência — disse ela, a voz baixa e cortante. — Eles acham que podem sangrar o grupo enquanto meu pai está inconsciente. Mas você estava certo, Lucas. O sabotador não é um estranho. É o tio Eduardo. Ele não apenas facilitou a falha médica; ele está drenando os ativos da holding para uma offshore própria.
Lucas parou. A revelação mudou a geometria daquela guerra. Eduardo era o pilar da ala conservadora, o homem que sempre tratara Lucas como um peso morto. O poder agora não era apenas sobre o prontuário, mas sobre a sobrevivência da própria linhagem Viana.
— Ele quer o controle total até o amanhecer — continuou Beatriz, os olhos fixos nos de Lucas. — Se você entrar naquela sala, eles vão tentar destruí-lo. Mas se não entrar, a empresa deixa de existir.
Lucas caminhou até a sala de diretoria. Ele espelhou os dados do prontuário e as provas da sabotagem de Eduardo nos telões. O conselho, que antes esbanjava arrogância, empalideceu diante da evidência crua de traição e negligência.
— Você não tem o direito de expor isso, Lucas — tentou argumentar Roberto, que fora trazido em uma cadeira de rodas, sua voz um sussurro seco. — Somos uma linhagem. O que faz aqui é suicídio corporativo.
Lucas nem olhou para ele. Ele observou Beatriz, que depositara uma folha amarelada sobre a mesa de mogno: o registro de uma transferência de fundos de trinta anos atrás. O documento ligava a fundação da fortuna dos Viana à destruição criminosa da família de Lucas. O choque foi absoluto. O patriarca não era apenas um tirano; ele era o arquiteto da ruína do pai de Lucas.
O silêncio que se seguiu foi o som de um império desmoronando. Lucas sentiu o peso do poder absoluto em suas mãos, mas uma sombra maior pairava sobre a sala. Enquanto os Viana se dilaceravam, uma notificação no celular de Lucas brilhou: uma oferta de um investidor externo, propondo o apoio necessário para liquidar o que restava do clã. Lucas estava diante da escolha final: destruir os Viana por dentro ou aceitar a aliança que lhe daria o poder total, mas ao custo de sua própria moralidade.