O Contra-Ataque da Diretoria
O mármore do saguão da Viana Holdings, em São Paulo, exalava uma frieza clínica naquela segunda-feira. Arthur Viana atravessou a recepção com o passo medido de quem conhece cada centímetro do terreno. Os funcionários, instruídos por Ricardo a tratar o herdeiro como um passivo em processo de liquidação, desviavam o olhar. O silêncio era a arma de escolha da casa.
Beatriz Lemos interceptou-o perto dos elevadores privativos. Ela mantinha a postura impecável, mas o tablet em suas mãos tremia levemente.
— A segurança recebeu ordens para revogar seu crachá e bloquear os servidores centrais — sussurrou ela, sem encará-lo. — Se você não entrar naquela sala nos próximos três minutos, sua assinatura será declarada nula por ausência técnica. Eles estão prontos para selar a ata de expulsão.
— Deixe que tentem — respondeu Arthur, a voz desprovida de qualquer hesitação. Ele sentia o peso da pasta de couro sob o braço; ali repousava a cláusula de 2018, autenticada e letal. — A diretoria não terá como contornar o veto. Suba comigo.
O painel do elevador exibia uma luz vermelha de acesso restrito. Arthur ignorou o bloqueio eletrônico, forçando a entrada com uma autoridade que fez o segurança da recepção recuar um passo, confuso demais para intervir. A subida foi silenciosa. No topo da pirâmide, Ricardo Viana aguardava, cercado por acionistas que viam na expulsão de Arthur o alívio necessário para o preço das ações.
A sala de reuniões cheirava a café frio e tensão acumulada. Ricardo ocupava a cabeceira da mesa de mogno, estendendo uma caneta de ouro em direção ao filho. O gesto não era um convite; era um veredito.
— Assine, Arthur. Poupe-nos do espetáculo — a voz de Ricardo era um veludo que escondia navalhas. — Sua incapacidade de gerar valor tornou-se um passivo insustentável. A renúncia voluntária é a única dignidade que lhe resta.
Arthur não tocou na caneta. Seus olhos percorreram o conselho, identificando quem tremia e quem apenas aguardava o saque. Com um movimento lento, ele retirou da pasta uma folha de papel timbrado, amarelada pelo tempo.
— Você se esqueceu de um detalhe, pai — Arthur disse, sua voz cortando o murmúrio da sala como uma lâmina. — A cláusula de governança que você mesmo redigiu para blindar a empresa contra investidores hostis. O 'Veto de Sangue'.
Ele deslizou o documento pelo mogno. Ricardo o ignorou inicialmente, mas o silêncio dos sócios, ao lerem a cláusula, tornou-se ensurdecedor. O rosto de Ricardo empalideceu quando percebeu que o documento invalidava qualquer tentativa de expulsão sem a anuência unânime dos fundadores — um bloqueio legal que Arthur agora detinha.
— O voto de expulsão é nulo — continuou Arthur. Ele deslizou um tablet pelo centro da mesa, exibindo gráficos em tempo real que faziam as ações da empresa derreterem em verde e vermelho. — E vocês são, no mínimo, incompetentes. O dinheiro das suas expansões, Ricardo, não veio do lucro. Veio de fundos de fachada ligados a um cartel que agora exige o colapso desta companhia como garantia. O conselho não vota mais em você. Eles votam na sobrevivência.
O clima na sala tornou-se rarefeito. Ricardo levantou-se, o rosto congestionado, batendo as palmas das mãos na mesa.
— Isso é difamação! Chamem a segurança! Tirem esse lixo daqui agora!
Ninguém se moveu. O conselho estava paralisado, encarando os dados no tablet. Quando Ricardo virou-se para a porta, exigindo a expulsão física do filho, os seguranças que guardavam a entrada não se moveram para atender o patriarca. Eles permaneceram imóveis, com os olhares fixos em Arthur, aguardando ordens que não viriam mais de Ricardo.