A Queda do Ídolo
O ar no subsolo do Arquivo Central da Academia não era apenas estéril; era eletricamente carregado, saturado pelo zumbido de servidores que processavam dívidas humanas em tempo real. Kaelen cambaleou, o ombro esquerdo latejando onde a sobrecarga térmica do duelo contra Valerius deixara uma cicatriz de queimadura fria sob o traje. Cada passo era um lembrete da dívida de 3.850 créditos que ainda pendia sobre sua cabeça, uma guilhotina financeira que não perdoava o sucesso.
— Dez minutos — a voz do estranho encapuzado era desprovida de emoção, um som metálico que parecia vir de um sistema de comunicação interno. Ele apontou para o terminal central, uma coluna de luz azulada que pulsava no ritmo das batidas cardíacas de Kaelen.
Kaelen não hesitou. Ele conectou sua interface ao terminal, ignorando o espasmo de dor que percorreu seu sistema nervoso. A tela não exibiu os registros de acesso comuns da Academia. Em vez disso, uma cascata de dados brutos fluiu através de sua consciência: padrões de telemetria, assinaturas de linhagem e, no centro de tudo, o código-fonte da técnica de 'Conversão de Estresse Térmico'.
— Isso não é uma técnica proibida — Kaelen murmurou, a voz rouca. Seus olhos rastreavam as linhas de comando. — É uma assinatura de ignição. O sistema da Academia não estava apenas avaliando os alunos; ele estava minerando algo mais profundo. Cada vez que eu convertia meu estresse térmico em potência, eu não estava apenas lutando. Eu estava servindo de bateria para a elite externa.
Ao sair do arquivo, o corredor de manutenção dos Mechs parecia mais estreito, o cheiro de ozônio e fluido hidráulico queimado tornando-se sufocante. A sombra de Mestra Elara surgiu sob a luz estroboscópica, imóvel. Ela não parecia surpresa; parecia uma predadora que finalmente via sua presa entrar na toca.
— Você exibe sua técnica proibida como se fosse um troféu, Kaelen — a voz dela era gélida. — Mas cada vez que você a ativa, o sistema de auditoria registra uma anomalia. Eles não estão apenas monitorando seu rank. Eles estão mapeando sua linhagem para a colheita. Se você não for vendido para uma facção externa agora, será descartado como lixo orgânico.
Kaelen sentiu o peso do Módulo de Resfriamento Criogênico em suas costas, uma âncora fria contra a febre de sua própria pele. — Você sabia — disse ele, a raiva fervendo sob a exaustão. — Você me treinou para ser o combustível deles.
— Eu te treinei para sobreviver ao que eles planejaram — Elara rebateu, sua máscara de mentora fria rachando por um milésimo de segundo. — Mas a auditoria está em 80%. O sistema é uma fazenda, Kaelen. Se quiser sair de lá, não pode apenas vencer os duelos. Você precisa destruir o registro da sua própria dívida.
Kaelen olhou para o painel em seu pulso. Ele não seria vendido. A decisão cristalizou-se em sua mente: ele hackearia a auditoria, tornando-se o dono da dívida da própria Academia.
Ele correu para o Centro de Controle de Provas. O suor escorria pelo seu rosto enquanto ele encaixava o Módulo de Resfriamento Grau A no servidor principal. O indicador térmico do Mech piscava em vermelho vivo: 87% de sobrecarga. Seis minutos para o upload. Ele conectou o cabo neural, sentindo a picada fria invadir sua nuca. O sistema reconheceu a assinatura proibida e começou a injetar o fragmento antigo.
— Vamos — rosnou Kaelen, os dedos voando sobre o terminal improvisado.
No monitor, a barra de progresso subia: 34%. A telemetria da Academia tentava rastreá-lo, enviando pulsos que queimavam como agulhas quentes em seu crânio. Ele ativou a Conversão de Estresse Térmico no próprio módulo. O resfriamento criogênico rugiu, mas o custo foi imediato: uma linha de dor lancinante subiu por sua espinha. O visor mostrou a estabilidade do Mech caindo para 41%. Ele estava sacrificando a integridade da máquina para forçar o upload.
De repente, um zumbido estridente preencheu o complexo. O alarme de segurança tocou, selando as saídas. Kaelen olhou para o monitor de ranking: seu nome desapareceu da lista de devedores, mas o sistema de defesa da Academia começava a convergir para sua posição. Ele tinha dez minutos para fugir com os dados ou ser preso para sempre.