O Custo da Eficiência
O cockpit do Sucata-01 era uma câmara de tortura metálica. Cada pulsação do motor ressoava nos dentes de Kaelen, um lamento de metal cansado que implorava por aposentadoria. No painel, o aviso de "Falha Estrutural Crítica" piscava em um vermelho que parecia zombar da sua sobrevivência. Lá fora, na plataforma de manutenção, a Mestra Elara observava, os braços cruzados sobre o jaleco cinzento, seus olhos gélidos dissecando a carcaça fumegante como se ela fosse um espécime de laboratório.
— Relatório de energia, Kaelen — a voz dela cortou o intercomunicador, desprovida de qualquer calor. — A assinatura térmica que vi no teste não condiz com um motor de Classe E. O que você fez com o núcleo?
Kaelen sentiu o suor frio escorrer pela nuca. Se ela acessasse o log bruto, a técnica proibida — a Conversão de Estresse Térmico — seria exposta, e ele seria expulso antes do pôr do sol. Com as mãos trêmulas, ele desviou o excesso de dados para a unidade de resfriamento, sacrificando quase todo o bônus de performance que acabara de ganhar. O sistema acusou erro, mas a assinatura térmica foi mascarada. Ao ver o novo saldo de créditos, o ar lhe faltou: o custo do reparo essencial consumira quase tudo. Ele estava vivo, mas desarmado e à beira da insolvência.
Horas depois, no subnível de comércio de sucata, o cheiro de ozônio e óleo barato impregnava o ar. Kaelen caminhava com a mão sobre o flanco do seu Mech, sentindo a vibração instável dos circuitos. Ele precisava de um núcleo de estabilização, uma peça rara capaz de suportar o estresse térmico da técnica sem derreter o chassi. Um cobrador da seita, cujos olhos brilhavam com o azul gélido de implantes de monitoramento, bloqueou seu caminho.
— O saldo da sua conta de essência está no vermelho, Kaelen. O sistema já marcou seu nome para liquidação — o cobrador rosnou, a mão pousada no cassetete de choque.
— O ranking mudou e minha eficiência operacional subiu — Kaelen respondeu, a voz firme apesar do medo. — Eu tenho dados de desempenho que valem mais que o seu bônus de sucata. Se me desativar, a Academia nunca saberá como um modelo série C atingiu aquela potência.
O cobrador hesitou, seduzido pela promessa de lucro. Kaelen trocou os dados brutos da técnica por uma peça de linhagem antiga, selada por proibição. De volta ao hangar privado, a instalação foi um pesadelo de dor. Ao fundir o núcleo ao sistema, a técnica devorou a peça, drenando a essência vital de Kaelen. Ele cerrou os dentes, sentindo mil agulhas geladas perfurarem seu peito, enquanto o Mech rugia com uma potência nova, faminta e instável.
No dia seguinte, o Pátio Central fervilhava. Valerius, o prodígio intocável, interceptou Kaelen com um sorriso de escárnio. Ele observou o braço modificado do Sucata-01, onde o componente proibido pulsava com uma luz avermelhada.
— Você fede a óleo de segunda mão e tentativa de suicídio — Valerius disse, sua voz amplificada para que todos ouvissem. — Aquele componente é um erro de engenharia que você não pode sustentar.
Valerius jogou uma moeda de ouro aos pés de Kaelen.
— Aposte sua dignidade, se é que ainda tem alguma. Aceite um duelo de ranking agora, ou admita que é um fraude.
Kaelen sentiu o peso da pressão social. Ao aceitar o desafio, a tela da arena acima deles brilhou, exibindo o novo ranking de Kaelen, enquanto o sistema desbloqueava o 'Tier de Elite', revelando que o próximo degrau da escada era muito mais letal do que ele imaginava.