O Cerco de Valerius
A luz azulada do Pináculo de Cristal, antes um farol de promessas, agora parecia uma lâmina fria cortando a neblina da madrugada. Kaelen ajustou o casaco puído, sentindo o peso do núcleo de classe A em seu peito — uma brasa instável que exigia manutenção constante. Ele precisava de energia refinada para estabilizar a integração antes da auditoria de linhagem, marcada para dali a 48 horas. Se não entrasse agora, a instabilidade implodiria seu progresso.
Ele caminhou até o terminal de acesso, onde os estudantes de elite passavam seus cartões com o desdém de quem possui o mundo. Quando Kaelen encostou seu passe, o terminal emitiu um sinal sonoro estridente, um tom vermelho-sangue que silenciou o saguão.
— Acesso negado — a voz sintética ecoou, fria e pública. — Identificação vinculada a restrição de classe por ordem administrativa: Valerius.
Kaelen sentiu o olhar dos outros estudantes. O desprezo habitual foi substituído por uma curiosidade predatória. Ele não era mais apenas o pária; era o alvo que Valerius decidira isolar. O guarda da academia, um homem de ombros largos e armadura gravada com o brasão da família de Valerius, bloqueou sua passagem com uma alabarda de energia.
— Ordens superiores, Kaelen — disse o guarda, a voz sem qualquer traço de empatia. — Você não pisa no Pináculo enquanto a dívida de ranking não for reavaliada. E, pelo que consta, você está proibido de qualquer carga de éter.
Kaelen não discutiu. Ele sabia que o confronto ali seria um suicídio social e físico. Enquanto se afastava, o peso do núcleo em seu peito tornou-se uma dor lancinante. Ele não podia recuar. Ele olhou para as tubulações de resíduos que serpenteavam a base da estrutura colossal. Ali, onde a elite não ousava olhar, estava sua única chance.
O ar nos dutos de ventilação do subsolo tinha o gosto metálico de ozônio queimado e poeira de cristal. Kaelen ajustou a máscara improvisada, sentindo a vibração do núcleo de classe A em seu plexo solar. Era uma pulsação errática, uma fera faminta que reagia com hostilidade à estagnação do ambiente. Ele consultou o mapa de fraquezas que Mestra Elara lhe entregara. O traçado brilhava em um tom pálido, revelando que a Academia não era apenas uma escola, mas um mecanismo de extração de energia. Kaelen arrastou-se por uma grade de serviço corroída, suas mãos raspando em resíduos de cultivo descartados. Ali, amontoados como lixo, jaziam fragmentos de núcleos instáveis e catalisadores exauridos. Para qualquer outro estudante, aquilo era entulho tóxico. Para ele, era combustível. Kaelen tocou um cristal de energia residual; sua técnica banida, uma ferida aberta em sua própria rede de cultivo, começou a sugar a emanação, estabilizando seu núcleo em uma troca violenta e necessária. O ganho era mensurável, mas deixava um rastro de assinatura energética que ele sabia ser impossível de esconder por muito tempo.
Enquanto ascendia pelos dutos, o som de botas metálicas ecoou. Três figuras, capangas de Valerius, bloqueavam o duto principal.
— O cão de rua tentou a rota dos condenados — a voz de um deles reverberou contra as chapas de metal. — Valerius quer que ele volte para o lixo de onde veio, em pedaços.
Kaelen não recuou. Ele sentiu o Núcleo de Classe A reagir à sua determinação, uma sobrecarga de energia instável que ele canalizou diretamente para a rede local do duto. Com um movimento brusco, ele sobrecarregou o terminal de ventilação, causando uma pane elétrica que mergulhou o setor na escuridão e desorientou os agressores com uma descarga de arco voltaico. Ele passou por eles como um espectro, deixando-os para trás na confusão.
Ao alcançar o nível superior, o ar tornou-se rarefeito e carregado com a arrogância dos que nunca conheceram a escassez. Kaelen alcançou o terminal central e, diante de seus olhos, a 'Escada de Elite' brilhava em dourado, um sistema de acesso restrito que ele nunca vira nos arquivos públicos. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando a luz fria. Ele não estava apenas olhando para uma lista de nomes; estava vendo o fluxo de energia da Academia sendo desviado para alimentar os privilégios dos herdeiros de linhagem.
Um sinal de alerta soou. No monitor, a imagem de Valerius surgiu, seu rosto contorcido em uma mistura de desdém e medo.
— Você é uma anomalia, Kaelen — a voz de Valerius ecoou pelo corredor. — Acha que chegar ao Ranking 48 lhe dá o direito de tocar no coração do Pináculo? A auditoria de linhagem vai consumir cada gota de poder que você roubou.
Kaelen sorriu, sentindo a energia da própria estrutura da Academia vibrar sob seu controle. O sistema de energia começou a oscilar, um colapso em cadeia que ele mesmo iniciara ao absorver os resíduos. Ele era agora o único que entendia como estabilizar — ou destruir — o Pináculo. Ele assumiu o controle do terminal, sabendo que a auditoria de linhagem estava a apenas 48 horas e que o destino da Academia agora dependia de seu próximo movimento.