O Preço do Silêncio
O cristal da taça de champanhe parecia uma âncora de vidro, pesada demais para as mãos de Beatriz. Ao redor, o salão do Hotel Fasano pulsava em uma elegância predatória. Cada risada abafada, cada olhar de soslaio dos convidados, era uma contagem regressiva. O leilão de caridade daquela noite não era sobre filantropia; era um teatro de crueldade onde a solvência financeira era o único ingresso aceito.
— Beatriz, querida — a voz de Marcelo, um dos credores da sua empresa de design, soou como uma lâmina fria atrás de seu ombro. — A liquidação dos ativos é na segunda-feira. Espero que sua presença aqui signifique que você encontrou um investidor, ou o leilão de hoje será o menor dos seus problemas.
Beatriz virou-se, mantendo o rosto uma máscara de porcelana. A humilhação era um convite que ela se recusava a aceitar.
— O assunto está sendo tratado, Marcelo. Não se preocupe com minha capacidade de honrar compromissos — respondeu, a voz firme, embora o pânico fosse um nó apertado em seu estômago.
Sofia precisava daquela escola, daquela casa, daquela segurança que ela construíra sozinha, tijolo por tijolo, no silêncio. O pensamento de falhar com a filha era a única coisa que a mantinha de pé.
— A arrogância é um luxo que você não pode mais pagar — ele retrucou, baixando o tom para um sussurro venenoso. — O mercado sabe que sua queda é uma questão de horas.
Antes que ela pudesse responder, uma sombra familiar se interpôs entre eles. Lucas Valente não pedia licença; ele ocupava o espaço, sua presença física dissipando o ar ao redor como uma tempestade contida. Ele não olhou para Marcelo, mas o homem recuou instintivamente, o peso do nome Valente operando como uma ordem silenciosa. Lucas se voltou para Beatriz, seus olhos percorrendo o vestido simples que ela usara para evitar atenções, encontrando a falha em sua armadura.
— Acompanhe-me — disse ele. Não era um convite.
A varanda privativa era um santuário de mármore frio, longe do burburinho. Lucas fechou a porta de vidro, isolando-os. Ele segurava um envelope pardo com a mesma naturalidade com que costumava segurar o destino de empresas inteiras. O cheiro de seu perfume — cedro e algo metálico, cortante — preenchia o espaço.
— Você está atrasada com o pagamento do fundo imobiliário, Beatriz — disse ele, a voz despida de qualquer gentileza. — E o banco acaba de me vender sua dívida. Não é uma coincidência, é uma oportunidade.
Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas manteve a coluna reta.
— Eu não pedi seu resgate, Lucas. E certamente não vou me tornar um ativo no seu portfólio.
Ele deu um passo à frente, encurralando-a contra o parapeito de pedra. A luz dos refletores da gala, lá embaixo, iluminava o perfil de Lucas, destacando a dureza de sua mandíbula.
— Minha imagem pública está em frangalhos por causa das acusações de desvio na construtora. O conselho exige uma mudança drástica. Preciso de uma noiva. Alguém que pareça impecável, inalcançável e, acima de tudo, que não faça perguntas. Você precisa de dinheiro para manter sua vida privada escondida do mundo. Eu preciso de você para limpar a minha narrativa.
Beatriz sentiu o ar faltar. O noivado era uma farsa, mas Sofia era sua única realidade. Se ele descobrisse a criança, a proteção que ele oferecia se transformaria em uma arma contra ela.
— Você exige obediência, mas não pode comprar minha história — respondeu ela, a voz firme, embora o coração martelasse contra as costelas. — O noivado é um negócio estritamente comercial. Sem escândalos, sem desvios da narrativa que eu determinar, e, acima de tudo, minha vida privada permanece inviolável. Se você cruzar essa linha, o contrato é nulo.
Lucas a observou por um longo momento, o silêncio pesado carregado de uma tensão elétrica que ela temia reconhecer. Ele estendeu a mão, e Beatriz, sentindo o peso do abismo financeiro, assinou o documento que ele estendeu sobre a mesa de mogno do escritório lateral para onde haviam se movido. Ao terminar, a mão de Lucas cobriu a dela, seus dedos roçando sua pele com uma familiaridade que a fez estremecer. Não era apenas o contrato que ele segurava; era a promessa de um controle que ele claramente pretendia exercer.
— O jogo começou, Beatriz — ele murmurou, o olhar fixo no dela, revelando que ele não havia esquecido o passado tanto quanto ela esperava.
Eles retornaram ao salão, prontos para enfrentar a plateia, sabendo que a farsa apenas começava.