A Escolha Final
O escritório de Lucas, no trigésimo andar, era uma caixa de vidro suspensa sobre o caos de São Paulo. Lá fora, a cidade pulsava, indiferente à guerra fria que se desenrolava sobre a mesa de mogno. Lucas deslizou uma pasta de couro em direção a Beatriz. O toque do material era frio; o conteúdo, ela sabia, queimava.
— Viana não está apenas investigando a minha empresa. Ele está mapeando cada movimento seu dos últimos seis meses — a voz de Lucas era um corte preciso no silêncio da sala. — Ele descobriu que as contas de segurança que abri não levavam a nenhum cliente comercial. Ele está perto de Leo.
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas não desviou o olhar. Ela abriu a pasta. Fotos de Leo saindo da escola, imagens de câmeras de segurança de seu prédio, registros de transações bancárias. A invasão era total. Ela olhou para Lucas, cujas mãos estavam fechadas, os nós dos dedos brancos. Aquele homem, outrora o magnata intocável que ela acreditava ter a abandonado por puro cálculo, estava ali, arriscando o que restava de sua reputação para estancar o sangramento que ele próprio, sem saber, ajudara a prevenir.
— Por que, Lucas? — ela perguntou, a voz firme apesar da tempestade interna. — Por que arriscar o conselho da sua empresa por algo que você nem sabia que era seu?
— Porque eu nunca parei de proteger o que era meu, Beatriz. Mesmo quando eu achava que era apenas um dever contratual, era instinto. Agora, é guerra.
Eles não perderam tempo com melancolia. Na sala de reuniões privada, o foco mudou para o contra-ataque. O dossiê revelava que Viana estava prestes a apresentar uma denúncia formal ao conselho de administração sobre os desvios de verba para a segurança de Leo.
— Ele quer me forçar a escolher entre o meu império e o seu segredo — explicou Lucas, a voz desprovida de hesitação. — Se eu me defender, exponho o rastreamento das contas. Se eu me calar, perco a presidência.
— Então não nos defenderemos — Beatriz retrucou, seus olhos brilhando com uma determinação gélida. — Vamos usar o noivado. Se formos vistos como um casal inseparável, qualquer ataque de Viana à minha vida financeira será interpretado pelo conselho como um ataque pessoal a você. Ele não pode nos destruir sem destruir a si mesmo.
O plano era arriscado, exigindo uma coreografia social impecável. O teste final veio horas depois, no salão de baile do Hotel Imperial. O luxo do ambiente era opressor, mas Beatriz manteve a postura, sentindo o olhar de Viana como uma lâmina em suas costas. Ele se aproximou com a precisão de um predador.
— O noivado é um espetáculo admirável, Beatriz — Viana começou, sua voz carregada de uma familiaridade venenosa. — Mas o que Montenegro realmente ganha ao proteger uma mulher cujas escolhas pessoais poderiam destruir o valor de suas ações? Ele sabe que o pequeno Leo é o elo que você esconde?
Beatriz sentiu o ar escapar, mas a mão de Lucas surgiu em sua cintura, firme e possessiva. Ele se inclinou, invadindo o espaço pessoal de Viana.
— Viana, sua insistência em auditar a vida alheia é fascinante — Lucas disse, o tom cortante como aço. — Infelizmente para você, minha equipe de compliance encerrou a revisão dos seus contratos de infraestrutura esta manhã. As inconsistências fiscais que encontramos não são apenas erros de cálculo; são evidências de má conduta corporativa que, neste momento, já estão nas mãos dos investidores majoritários.
O rosto de Viana empalideceu. A arrogância evaporou diante da realidade de sua ruína iminente. Ele recuou, derrotado pela própria ganância, enquanto os convidados observavam o magnata Montenegro proteger sua noiva com uma ferocidade que não deixava margem para dúvidas.
Sozinhos no apartamento de Beatriz, o silêncio tinha o peso de uma confissão tardia. O contrato de noivado, que até poucas horas atrás era o escudo legal de Beatriz, jazia sobre a mesa de centro. Obsoleto.
— Viana está fora do jogo — disse Beatriz, embora as mãos tremessem. — O perigo imediato para Leo passou.
Lucas virou-se, a silhueta recortada pelas luzes da cidade. — O perigo para o seu filho nunca foi apenas Viana, Beatriz. Foi a distância que você impôs. Seis meses de proteção secreta não apagam cinco anos de ausência, mas me deram a clareza que eu não tinha antes: eu não estou fazendo isso por dever. O contrato acabou.
Beatriz sentiu o coração acelerar. A barreira que ela mantinha entre eles, construída com mágoa e orgulho, estava desmoronando sob o peso da realidade. — Então por que ainda está aqui? O teatro da nossa relação pública não precisa mais ser sustentado.
Lucas deu um passo à frente, fechando a distância que os separava. — Porque o teatro era uma mentira, mas a nossa família é a única verdade que me restou. A escolha agora é sua: o noivado continua por dever à criança, ou você vai me permitir ser o homem que eu deveria ter sido há cinco anos?
Beatriz olhou para ele, o peso da decisão final pesando sobre seus ombros. A ameaça de Viana fora contida, mas o segredo de Leo agora era um território compartilhado. Ela tinha a agência, a dignidade, e a liberdade de escolher seu futuro. O contrato expirara, mas o compromisso real estava apenas começando.