Noite de Gala e Mentiras
O espelho do closet não refletia apenas uma mulher, mas uma estrategista em véspera de batalha. O vestido azul-noite, uma peça de alfaiataria impecável, pesava sobre os ombros de Beatriz como uma armadura cerimonial. Ela não se preparava para um baile; preparava-se para manter o segredo mais perigoso da cidade a salvo sob o brilho dos diamantes. Leo, no quarto ao lado, dormia sob a proteção da babá, alheio ao fato de que sua existência era o motivo pelo qual Beatriz estava prestes a se entregar a uma farsa pública com o homem que, cinco anos atrás, tentara destruir sua dignidade.
A porta se abriu com a precisão silenciosa de Lucas Montenegro. Ele não entrou como um convidado, mas como alguém que já dominava aquele território. Ao vê-la pronta, seu olhar não se perdeu em elogios superficiais. Havia uma sobriedade em seus olhos, um reconhecimento da força que Beatriz emanava por trás da fachada.
— Você está pronta? — a voz dele era um murmúrio despojado de galanteios. Ele parou a uma distância que era, ao mesmo tempo, profissional e eletrizante. — O carro espera. Lembre-se, Beatriz: hoje o salão não é um lugar de celebração. É um campo de minas. Se Viana perceber qualquer hesitação, ele usará isso para nos desestabilizar.
— Minha hesitação é um luxo que não posso me permitir — retrucou ela, fechando o fecho de prata em seu pescoço. O metal frio foi um lembrete físico de seu preço. — Vamos logo antes que eu mude de ideia sobre essa aliança.
Ao chegarem ao Hotel Imperial, o salão de baile revelou-se um tribunal de mármore e cristal. Cada sussurro entre os convidados carregava o peso de uma sentença. Lucas não caminhava ao seu lado; ele a conduzia, sua mão firme e possessiva na base de suas costas funcionando como uma demarcação de território que o salão inteiro notou.
— Relaxe os ombros — sussurrou Lucas, a autoridade em sua voz forçando-a a manter a postura. — Marcelo Viana já nos observa desde a entrada. Se você demonstrar medo agora, eles se alimentarão disso.
Beatriz ignorou o desejo de procurar pelo mentor na multidão. Ela sabia exatamente onde ele estava. A proximidade de Lucas, o homem cujo abandono ela chorara por anos, era como caminhar sobre vidro moído. Quando o grupo de investidores, liderado por Viana, interceptou o caminho deles, o ar tornou-se rarefeito.
— Lucas, Beatriz. Que surpresa adorável ver vocês dois... tão próximos — Viana sorriu, um gesto que não chegava aos olhos. — Ouvi dizer que os negócios de Beatriz andam por um fio. É louvável que você tenha decidido intervir, Lucas. Ou será que há algo mais, além de caridade, na conta desse noivado?
Lucas deu um passo à frente, colocando-se entre Beatriz e o mentor. Ele sacrificou a própria cortesia social, interrompendo Viana com uma rispidez calculada que silenciou o grupo.
— Meu relacionamento com Beatriz não é um assunto para seus relatórios de insolvência, Viana. Se quer falar de negócios, marque uma reunião. Se quer falar da minha vida privada, sugiro que procure outro entretenimento antes que eu decida que a sua presença aqui é um incômodo que não pretendo tolerar.
Beatriz sentiu o choque dos convidados. Lucas estava arruinando sua própria reputação de magnata intocável apenas para desviar o foco dela. Era uma proteção cara, uma escolha deliberada que mudava a natureza do contrato: aquilo já não era uma simples transação.
Mais tarde, na pista de dança, o protocolo da farsa exigiu que eles se aproximassem. O toque de Lucas, embora exigido, queimava através da seda do vestido.
— Ele sabe que estamos jogando — sussurrou Beatriz, mantendo o sorriso mecânico para os curiosos. — Por que ele não atacou ainda?
— Porque ele ainda nos subestima — respondeu Lucas, girando-a com uma precisão que forçava a intimidade. — Ele não percebeu que, ao tentar nos destruir há cinco anos, ele criou a única coisa capaz de derrubá-lo: uma aliança que não se baseia mais em segredos, mas em sobrevivência. Beatriz, a sabotagem foi o maior erro da minha vida. Leo é o único motivo pelo qual eu ainda busco reparação.
A confissão atingiu Beatriz com a força de um soco. A mão de Lucas apertou a dela, um gesto de urgência que quase quebrou a máscara de ambos.
Eles escaparam para o terraço, onde o ar frio do inverno cortava o calor sufocante do salão. Lucas encostou-se no parapeito, o olhar perdido na metrópole. A atmosfera estava carregada, a farsa do noivado testada pelo silêncio que se seguia.
— Eles acreditam em cada detalhe, Beatriz — disse ele, a voz carregada de uma gravidade que a desarmou. — Até eu, por alguns momentos, me pego esquecendo que o contrato tem uma data de validade.
Beatriz sentiu o sangue gelar. Ela manteve as mãos fechadas sobre a bolsa, os nós dos dedos brancos. — O contrato serve a um propósito, Lucas. Não o confunda com algo que possa ser sentido. Nós dois sabemos o que acontece quando a conveniência é substituída por expectativas reais.
Ele virou-se bruscamente, o movimento carregado de uma urgência contida. A luz dos refletores desenhava sombras duras em seu rosto, evidenciando a cicatriz da traição que ambos carregavam.
— A conveniência era o plano inicial, sim — ele admitiu, dando um passo em direção a ela, diminuindo o espaço até que o calor de seu corpo fosse quase tangível. — Mas, desde que descobri a verdade sobre quem você é hoje, sobre quem é o seu filho... o noivado falso tornou-se a única realidade que eu desejo proteger. Eu não estou apenas cumprindo um contrato, Beatriz. Estou tentando recuperar o que me foi roubado.
Beatriz recuou, mas o parapeito a impediu. Ao aceitar a proteção de Lucas, ela percebeu que havia aberto a guarda para o único homem que ela tentara manter afastado. O peso daquela entrega era maior do que qualquer ameaça de Viana. Ela estava presa, não mais pelo contrato, mas pela verdade que ele acabara de colocar na mesa.