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Chapter 2: A Fachada de Cristal

Helena e Arthur enfrentam a primeira prova pública de seu noivado no gala. Arthur utiliza Helena como escudo estratégico, humilhando Beatriz para proteger a imagem da parceria. A tensão entre eles aumenta no retorno para casa, revelando que a proteção de Arthur é puramente tática.

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A Fachada de Cristal

O ar-condicionado do salão de gala parecia ter congelado no momento em que a tinta da minha assinatura secou no contrato. Arthur não perdeu tempo com cortesias. Com um movimento preciso, ele envolveu minha cintura, uma pressão firme, possessiva e, acima de tudo, pública. O toque queimou através do tecido do meu vestido de seda, um lembrete físico de que eu não era mais uma mulher livre, mas um ativo sob gestão.

— Sorria, Helena — ele murmurou, a voz baixa, quase inaudível sob o tilintar das taças de cristal. — Os abutres já sentiram o cheiro de sangue. Se quer que este noivado pareça real, pareça que você gosta de estar aqui.

Endureci a postura, forçando um sorriso que não alcançava meus olhos. A poucos metros, a matilha de fotógrafos avançava, sedenta por qualquer sinal de hesitação. Eu era a socialite em declínio, a mulher cujo sobrenome estava sendo apagado dos registros de propriedade em São Paulo, e Arthur era o herdeiro que, por puro cálculo, decidira me usar como escudo contra o escrutínio dos acionistas.

— Não me dê ordens — retruquei, mantendo o rosto voltado para as lentes. — O contrato diz que sou sua sócia, não sua subordinada.

— Sócias não tremem quando a imprensa se aproxima — ele rebateu, a frieza em seu olhar cortando qualquer réstia da minha dignidade. Ele me puxou mais para perto, forçando meu corpo contra o seu, uma manobra calculada para as câmeras que captavam cada ângulo da nossa suposta harmonia.

O ambiente, carregado com o perfume caro e o julgamento silencioso da elite paulistana, tornou-se um campo minado. Foi então que Beatriz se aproximou, com aquele sorriso que não chegava aos olhos, ciente dos leilões judiciais que pendiam sobre minha casa.

— Helena, que surpresa vê-la aqui — ela disse, o tom venenoso. — Ouvi dizer que a liquidação dos seus bens é uma questão de dias. Você está um pouco fora do seu orçamento habitual para este gala, não acha?

Senti a rigidez percorrer o braço de Arthur, mas ele não me soltou. Ele se virou lentamente, seu rosto transformado na máscara de frieza que o tornava um dos negociadores mais temidos do país. O silêncio que se formou ao nosso redor foi instantâneo.

— Beatriz — Arthur começou, a voz desprovida de qualquer emoção. — O orçamento da minha noiva não é um assunto para convidados. Na verdade, Helena está aqui como a nova conselheira estratégica dos investimentos da Valente Holding. Acredito que a sua preocupação com as finanças dela seria melhor aplicada em tentar entender por que a sua própria família está perdendo espaço no mercado.

Beatriz empalideceu, recuando como se tivesse sido atingida. O golpe foi preciso, eliminando qualquer dúvida sobre a minha posição. Mas, enquanto ela se afastava, o peso da gratidão forçada caiu sobre mim. Aquela proteção não era altruísmo; era a manutenção do ativo que ele acabara de adquirir.

Dentro do carro blindado, assim que a porta se fechou, isolando-nos do barulho externo, Arthur desfez o nó da gravata com um movimento brusco. A postura impecável cedeu à rigidez de um predador.

— Você foi impecável — ele murmurou, sem me olhar, enquanto o motorista arrancava. — O seu silêncio foi a nota perfeita para a minha réplica.

— Não se iluda, Arthur — respondi, mantendo a voz firme. — Eu não estava lá para ser o seu adereço de luxo. Se você me defendeu, foi porque o meu nome manchado afetaria o seu império, não por qualquer preocupação com a minha integridade.

Ele finalmente virou o rosto. Seus olhos, escuros e impenetráveis, analisaram cada centímetro do meu rosto, como se buscasse uma falha na máscara que eu tentava sustentar. Ao chegarmos à mansão, ele não esperou que eu saísse.

— Cancele minha agenda para as próximas quarenta e oito horas — ele ordenou ao motorista, sem desviar os olhos do tablet onde as manchetes sobre nosso noivado já explodiam. — Não quero que qualquer boato chegue aos acionistas antes do fechamento do mercado.

Observei o reflexo das luzes da cidade na janela. Ele estava priorizando minha imagem, mas era um movimento puramente tático. Se eu caísse, a fachada de herdeiro estável que ele precisava para consolidar seu império desmoronaria junto comigo. O flash das câmeras iluminou o desprezo nos olhos de Arthur, mas sua mão na minha cintura dizia o contrário para o público. O jogo havia começado.

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