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Chapter 1: O Preço da Dignidade

Helena, à beira da ruína financeira, é confrontada por um credor em um gala de elite. Arthur Valente intervém, oferecendo um casamento por contrato como escudo social. Helena aceita sob a condição de ser tratada como sócia, e o casal inicia sua performance pública sob o escrutínio da imprensa.

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O Preço da Dignidade

O brilho dos candelabros do Fasano não celebrava a caridade; ele expunha fissuras. Ajustei a alça do vestido de seda azul-noite — a última peça de alta costura que o leiloeiro ainda não havia confiscado — e ergui o queixo. Em São Paulo, a ruína financeira era um pecado capital, mas a falta de compostura era um crime imperdoável. Eu estava ali para cometer ambos, se necessário, mas preferia apenas o primeiro.

— Helena? Pensei que sua família tivesse sido banida de eventos de gala após o escândalo das contas offshore — a voz de Ricardo, um credor cujos métodos eram tão predatórios quanto seu sorriso, cortou o ar. Ele não baixou o tom. O silêncio se espalhou como uma mancha de óleo; conversas cessaram, e olhares curiosos convergiram para nós.

— Minha família é o que eles quiseram, Ricardo. Eu sou o que resta — respondi, mantendo a voz nivelada, embora meu estômago desse voltas.

— O que resta é uma dívida que vence à meia-noite, querida. Ou você paga, ou o leilão da sua casa de campo começa amanhã. Sem reservas.

A humilhação era um peso físico, uma pressão no peito que tornava o ar rarefeito. Foi quando uma sombra se projetou sobre nós. Arthur Valente não precisava pedir licença. Ele apenas existia, e o mundo ao redor parecia se curvar.

— Ricardo. Sua falta de modos é tão notável quanto sua falta de clientes legítimos — a voz de Arthur era fria, desprovida de compaixão. Ele não olhou para mim; seus olhos estavam fixos no credor, uma muralha de aço que, por um motivo que eu ainda não entendia, decidira bloquear o ataque. — A senhorita Helena está sob minha tutela financeira esta noite. Seus assuntos com ela passam a ser tratados pelo meu escritório.

Ricardo empalideceu e recuou. Arthur me segurou pelo cotovelo, não com gentileza, mas com a possessividade de quem reclama uma propriedade. Ele me conduziu para a varanda privativa.

— O escândalo de amanhã será devastador, Helena — disse ele, soltando-me e afastando-se para a balaustrada. — Seus credores não são homens de sutilezas. Minha oferta é a única que mantém o seu nome longe das colunas policiais.

Apertei a borda da taça de champanhe até meus nós dos dedos ficarem brancos. — E o que você ganha com isso, Arthur? Sua sucessão corporativa exige uma esposa, não um troféu quebrado. Por que eu?

Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro de sândalo e couro que emanava dele era opressor. — Porque você tem dignidade o suficiente para atuar com perfeição, e desespero o suficiente para nunca tentar me trair. Mas não se engane: não serei uma peça decorativa. Se vou ser sua esposa, serei sua sócia. Exijo voz nas decisões que afetam meu nome e proteção total contra os abutres que circundam minha família.

Arthur soltou um riso gélido. — Aceito o termo, desde que a performance seja impecável. O contrato será assinado antes da meia-noite.

Retornamos ao salão. Eu era o tópico do dia, a mulher cujo sobrenome fora arrastado pela lama, agora presa pelo cotovelo por Arthur Valente.

— Sorria — ele murmurou, a voz carregada com a frieza de uma ordem corporativa. — A imprensa está esperando um espetáculo de unidade. Não os decepcione.

— Você comprou minha dignidade, Arthur. Não espere que eu a performe com entusiasmo — retruquei.

Ele me conduziu para o centro da pista de dança. Cada passo era uma coreografia de poder. Ele me segurava com uma firmeza possessiva, a mão pressionando a seda do meu vestido. Quando o movimento brusco de um garçom quase me fez perder o equilíbrio, ele me puxou contra seu peito, impedindo a queda com uma força bruta e calculada.

Ele estendeu a mão, não para me cumprimentar, mas para me segurar antes que eu caísse. O contrato estava selado, e minha vida antiga acabara de ser substituída por uma prisão de luxo. O flash das câmeras iluminou o desprezo nos olhos de Arthur, mas sua mão na minha cintura dizia o contrário para o público. O jogo havia começado.

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