A Vitrine de Cristal
O escritório de Rafael, no topo da torre Vasconcelos, era um santuário de silêncio e poder, mas naquela noite, o ar parecia rarefeito. Beatriz observava o reflexo dele no vidro temperado. Ele não se virou, mas a tensão em seus ombros largos era uma confissão silenciosa. O pingente de safira, que ela guardava como prova de que Mariana não fugira, pesava no bolso do blazer como um chumbo.
— O leilão de amanhã não é caridade, Rafael — a voz de Beatriz cortou o ambiente, firme. — Você precisa dessa venda para camuflar o buraco contábil que surgiu quando Mariana foi levada. E eu sou a vitrine, a peça de luxo necessária para que ninguém questione a legitimidade do capital que entra.
Rafael girou sobre os calcanhares. Seus olhos, gélidos e calculistas, encontraram os dela. Ele não negou. — Você aprendeu a ler o mercado mais rápido do que eu previa, Beatriz. — Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal, um gesto de dominação que ela não recuou para evitar. — Mas entenda: se o Grupo Vasconcelos cai, sua proteção evapora. Você é minha noiva perante a lei e o conselho. Se eu for destruído, você será arrastada junto.
— A minha dignidade não é um ativo fixo, Rafael. E o fato de você saber que Mariana foi sequestrada antes de me contratar torna este contrato um risco para nós dois.
Horas depois, o salão de baile do Hotel Unique brilhava como uma jaula de cristal. O perfume caro e o som de taças de champanhe mascaravam a ferocidade da elite paulistana. Beatriz mantinha o sorriso ensaiado, o colar de safira brilhando em seu pescoço como uma algema elegante.
— Sorria mais, querida. Eles estão observando — murmurou Rafael, a mão firme na curva de sua cintura. O toque era público, estratégico, mas o polegar dele roçou a pele nua de suas costas. Beatriz sentiu o calor subir, uma resposta física que a enfureceu pela falta de controle.
Enquanto o leiloeiro anunciava uma tela de Portinari, os olhos de Beatriz varriam o salão. Ela notou o segurança perto da saída lateral — o mesmo homem que, momentos antes, sustentara seu olhar com uma intensidade que não pertencia a um simples funcionário. O infiltrado.
— Você parece distraída — uma voz masculina soou à sua direita. Gustavo Mendes, o rival de Rafael, surgiu com um sorriso predatório. — Ou será que o noivo a mantém ocupada demais com as cláusulas do contrato?
Rafael enrijeceu, o corpo se transformando em uma muralha. — Gustavo. Seus comentários costumam ser tão baratos quanto suas ofertas de mercado.
— Rafael, sempre tão defensivo — retrucou Mendes, ignorando a hostilidade. Ele voltou a atenção para Beatriz. — Beatriz, se a vida de noiva decorativa se tornar pesada demais, saiba que existem outras rotas. Proteção real, fora da sombra dos Vasconcelos.
Rafael deu um passo à frente, pronto para o confronto, mas Beatriz interveio, sua voz fria: — Agradeço a preocupação, Mendes, mas prefiro o peso das minhas escolhas à leveza da sua traição.
Mais tarde, na varanda isolada, o ar noturno era um alívio. Beatriz não teve tempo de respirar antes que Mendes a encurralasse.
— Você é inteligente, Beatriz. Sabe que o navio está afundando. Eu tenho a chave para a sua saída definitiva. Uma nova identidade, proteção contra o escândalo que virá quando a verdade sobre Mariana for exposta. Em troca, só preciso de uma cópia dos arquivos que você acessou nos servidores.
Beatriz sentiu o sangue gelar. Ele sabia. A oferta de Judas estava sobre a mesa: a liberdade imediata ao custo da destruição de Rafael. Ela olhou para a porta do salão, onde Rafael a observava de longe, o olhar fixo nela com uma mistura de possessividade e uma sombra de vulnerabilidade que ela nunca vira antes.
— Você é tão perigoso quanto ele, Mendes — ela disse, mantendo a voz estável. — A diferença é que, com Rafael, eu sei exatamente o preço que estou pagando. Com você, eu seria apenas uma peça descartável.
Ela se afastou, deixando Mendes com um sorriso enigmático. Ao retornar para o lado de Rafael, ele a puxou para perto, a urgência em seu toque denunciando que ele notara a aproximação de seu rival.
— O que ele queria? — Rafael perguntou, o tom baixo, quase possessivo.
Beatriz olhou para os olhos dele, o peso da decisão ainda latejando. Ela não respondeu. Apenas aceitou a proximidade, sabendo que, na manhã seguinte, o casamento civil selaria um destino do qual ela não poderia mais escapar. A fachada de gelo de Rafael, por um momento, pareceu rachar, e ela viu, no fundo daqueles olhos escuros, a mesma solidão que ela carregava. O jogo mudara; o contrato era apenas o começo.