Cláusulas de Intimidade
O silêncio na suíte principal da mansão Vasconcelos era mais cortante que o burburinho do salão de festas. Beatriz fechou a mão sobre o pingente de safira, sentindo o metal frio cravar na palma. Não era apenas uma joia esquecida; era a prova de que Mariana, a noiva que a antecedera, não havia partido por capricho. O objeto estava escondido atrás de uma gaveta de camisas sob medida, um segredo que Rafael não tivera coragem de descartar, mas que também não ousava encarar.
O som dos passos pesados no corredor a fez estremecer. Beatriz deslizou o pingente para o fundo do bolso do vestido de seda. A porta se abriu e Rafael entrou, desabotoando os punhos da camisa. Ele parecia exausto, a postura impecável escondendo a tensão que mantinha sob controle absoluto para o mundo, mas que agora, a portas fechadas, parecia prestes a transbordar.
— O jogo de cena terminou, Beatriz — ele murmurou, a voz rouca, sem desviar o olhar do espelho enquanto removia as abotoaduras. — Pode parar de fingir que está confortável. Ninguém está olhando agora.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas. O cinismo dele era sua barreira, o escudo que usava para mantê-la como uma peça de xadrez, mas aquele pingente mudava o peso da partida. Ela se aproximou, a determinação sobrepondo-se ao medo que a mantinha alerta.
— Você diz que o escândalo foi contido, mas o que aconteceu com ela, Rafael? — A pergunta escapou antes que ela pudesse filtrá-la. — Mariana não fugiu. Ela foi silenciada.
Rafael parou o movimento das mãos. O ar na suíte tornou-se denso. Ele se virou lentamente, o olhar clínico e perigoso de um estrategista avaliando uma peça que começava a se mover por conta própria.
— Você está invadindo territórios que não foram incluídos na nossa cláusula de convivência — a voz dele era um fio de navalha. — O seu papel é ser a noiva, não a investigadora. A curiosidade, neste ambiente, é um ativo tóxico.
— Minha dignidade não é um ativo, Rafael. É o preço da minha permanência — ela rebateu, mantendo o olhar firme. — Se eu sou a sua fachada, preciso saber contra o que estou me protegendo. Ou você prefere que eu descubra da pior maneira?
Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume caro de sândalo e tabaco a envolveu, uma barreira de autoridade que tentava sufocar sua coragem. Antes que ele pudesse responder, o telefone sobre a mesa vibrou, uma luz azul cortando a penumbra. Era uma notificação urgente do conselho diretivo. Rafael atendeu, o rosto endurecendo enquanto ouvia a voz estridente de um acionista questionando a "falha estética" da substituição.
— O mercado não aceita dúvidas, Rafael — a voz do homem vazou pelo aparelho. — Se essa garota não for apenas uma fachada, prove. Caso contrário, a credibilidade do seu nome cairá junto com as ações na abertura de amanhã.
Beatriz sentiu o sangue fugir de suas bochechas. A humilhação era um convite para ela se encolher, mas, antes que pudesse formular uma defesa, Rafael interrompeu, sua voz cortante como vidro:
— Ela não é uma fachada. Ela é a escolha que eu fiz, e qualquer um que questione a integridade da minha noiva estará questionando a minha própria gestão. O conselho será notificado da nossa união civil amanhã pela manhã. Não haverá mais margem para especulação.
Ele encerrou a chamada e guardou o aparelho, encarando Beatriz com uma intensidade que a deixou sem fôlego. Não era doting, era a defesa possessiva de um terreno que ele acabara de reivindicar. Ele a conduziu até a biblioteca, o acesso restrito que ela tanto buscara. Lá, sobre a mesa de mogno, ele abriu um arquivo digital. Documentos provavam que a noiva original havia sido ameaçada por chantagistas antes do desaparecimento. A "fuga" fora uma falha de segurança que ele não podia permitir que se repetisse.
— Ela foi levada, Beatriz — ele admitiu, a voz baixa, revelando a gravidade da dívida de sangue que ele carregava. — E se você continuar cavando, será a próxima.
A noite terminou com um aviso sonoro seco no tablet de Rafael. Ele empalideceu ao ler uma mensagem anônima que citava detalhes íntimos que apenas Beatriz e ele compartilhavam desde a assinatura do contrato. O texto era breve, cirúrgico, mencionando o pingente que ela ainda carregava no bolso. Rafael olhou para ela, o pânico contido nos olhos revelando que a ameaça não vinha de fora, mas de dentro da própria mansão. A antecessora não fugira; ela fora caçada. E agora, o jogo de poder entre eles acabara de se tornar uma luta pela sobrevivência.