A Assinatura do Contrato de Sangue
O ar na suíte presidencial do Hotel Fasano era rarefeito, carregado pelo perfume cítrico de Arthur e pelo zumbido distante da imprensa que ainda cercava o lobby. Beatriz mantinha a coluna ereta, o vestido de noiva, agora uma relíquia de um compromisso falido, pesando como uma armadura de chumbo. Sobre a mesa de mogno, o contrato de fusão e casamento repousava como uma sentença. Arthur Valente não a olhava com a compaixão que ela detestava, mas com a precisão cirúrgica de quem avalia um ativo em risco de colapso.
— O tempo é um luxo que sua família não possui, Beatriz — ele disse, a voz despida de qualquer calor. — Ricardo levou os ativos. Se você não assinar, a falência será pública antes do amanhecer.
Beatriz pegou a caneta de metal escovado. Seus olhos fixaram-se em uma subseção sobre "gestão de riscos de segurança pessoal". A linguagem era ambígua, fria, e escondia algo que ia muito além da fusão corporativa. Ela assinou com um traço firme, sentindo o peso da decisão como uma sentença de aprisionamento luxuoso.
Minutos depois, o mármore do salão de baile parecia frio sob seus saltos. Arthur caminhava ao seu lado, o braço rígido como uma extensão de sua alfaiataria impecável. Ele não a tocava, mas sua presença era uma cerca elétrica, mantendo os convidados a uma distância calculada. O zumbido das conversas cessou quando eles entraram; o escândalo da fuga de Ricardo ainda pairava, mas a visão de Arthur Valente assumindo o controle transformara o choque em uma curiosidade predatória.
— Sorria — murmurou Arthur, a voz baixa contra o ombro dela. — Eles estão esperando o desmoronamento. Não lhes dê esse prazer.
Antes que ela pudesse responder, Helena, uma socialite cujo desprezo era tão afiado quanto suas joias, bloqueou o caminho. — Que substituição curiosa, Arthur — ela sibilou, o olhar varrendo Beatriz como se fosse um produto com defeito. — Imaginei que você preferisse algo com mais pedigree, e não uma noiva de segunda mão deixada para trás por um golpista.
O silêncio no salão tornou-se absoluto. Beatriz sentiu o sangue subir, mas antes que pudesse formular uma retórica, a mão de Arthur fechou-se sobre sua cintura, firme e possessiva. Ele não se exaltou; apenas inclinou a cabeça, o olhar gélido fixo em Helena.
— Beatriz não é uma substituta, Helena. Ela é a única mulher nesta sala que possui a coragem de sustentar o nome Valente ao meu lado — o tom de Arthur era um corte de navalha. — Se a sua próxima frase não for um pedido de desculpas, garanto que o convite para o próximo evento da holding será a última coisa que você receberá desta família.
Helena empalideceu e recuou. Arthur não esperou pela resposta. Ele conduziu Beatriz para a penumbra de uma coluna de mármore, um perímetro onde o brilho dos lustres mal alcançava.
— Respire — ele ordenou, a mão ainda em sua cintura, exercendo uma pressão que a fazia perder o fôlego. — Seus ombros estão tensos. Isso é um convite para que os abutres sintam o cheiro de medo.
— Você não está me salvando, Arthur — retrucou ela, sentindo o calor da mão dele através do cetim do vestido. — Você está comprando um ativo.
— Eu estou orquestrando a sua sobrevivência — ele corrigiu, a voz baixa, vibrando contra o ruído distante das taças. — Ricardo fugiu com o que pôde, mas ele deixou rastros que só eu posso apagar. Olhe ao seu redor. Todos ali querem saber se você é uma vítima ou uma aliada. Decida rápido, ou eles vão devorá-la antes que a noite termine.
Mais tarde, na suíte, a porta fechou-se com um estalo seco. Beatriz caminhou até o centro do ambiente, o silêncio pesando mais que o escrutínio do salão. Arthur, imóvel junto à entrada, observava-a com uma intensidade que fazia o ar parecer denso.
— O contrato — ela começou, a voz firme. — As cláusulas de confidencialidade não mencionavam que o risco de falência era apenas a ponta do iceberg. O que você me escondeu?
Arthur caminhou lentamente em sua direção, cada passo calculado. Ele estendeu a mão, retirando o grampo de diamante que prendia o véu de Beatriz. O tecido caro deslizou por seus ombros, caindo no chão. A nudez de seus ombros sob o olhar dele era uma nova forma de exposição. Ele trancou a porta da suíte, mudando a dinâmica de poder ao admitir, com a voz rouca e despida da frieza habitual:
— Eles não querem apenas a empresa, Beatriz. Eles querem você.