A Torre em Chamas
O dreno não foi um desligamento; foi um grito metálico que percorreu os eixos de sustentação da Torre. Dentro da cabine do Sucata, o visor piscava em carmesim, exibindo os logs de sabotagem da Academia que agora inundavam as telas de todos os níveis da cidade. O Vanguard-IV de Valéria, antes um titã de tecnologia de ponta, tombava como um brinquedo sem vida na arena, seus sistemas vitais devorados pela mesma fome mecânica que Kael despertara.
— Kael, saia daí! — A voz de Valéria estalou no comunicador, distorcida pela estática. Ela não era mais a rival altiva; o tom era de urgência pura. — Você não drenou apenas a bateria da Academia. Você abriu a comporta de algo que eles mantinham em sono profundo. A estrutura não vai aguentar a pressão!
A arena tremeu. Fragmentos de concreto reforçado despencavam, esmagando os assentos vazios da elite. Kael sentiu o Sucata protestar; os atuadores hidráulicos, forçados além do limite por séculos de obsolescência, gemiam em sincronia com o esqueleto da Torre. Se o dreno parasse agora, a Academia teria tempo de reiniciar os protocolos e apagar a verdade que ele transmitira.
— Se eu soltar, a energia flui de volta para eles — Kael respondeu, travando os comandos manuais. O dreno de energia vital, uma corrente fria que corria por seus próprios nervos, parecia querer estraçalhar sua consciência. Ele forçou uma saída de emergência, sobrecarregando os sistemas de contenção. O chão sob o Sucata cedeu, revelando o abismo dos dutos de serviço.
O ar no Nível de Serviço era espesso, carregado com o cheiro de ozônio e metal queimado. Quando Kael desceu do cockpit, as pernas falhando, encontrou Valéria entre os escombros. Ela estava desarmada, o traje de piloto chamuscado, os olhos fixos na rede de cabos expostos que pulsavam com uma luz azul pálida.
— Eles selaram as comportas — disse ela, sem olhar para ele. — A Torre sabe que você é um parasita. Você não entende? Isso não é uma cidade. É uma bateria biomecânica. Ela consome a vida dos pilotos de elite para alimentar sua existência. A dívida que te prendia? Era apenas o dreno constante para manter o sistema operante.
Kael sentiu um frio gélido. A dívida, o medo da liquidação, a pressão de subir na escada… tudo era uma engrenagem para manter a máquina alimentada. Ele olhou para o Sucata, cujas peças ancestrais vibravam em ressonância com as paredes. Ele aceitou a ajuda de Valéria, não por confiança, mas por necessidade. Eles precisavam alcançar os dutos de ventilação ancestrais, o único caminho que a Torre não conseguia purgar.
Enquanto subiam, o edifício reagia. Paredes se fechavam como mandíbulas, tentando esmagar o Sucata. A sincronização forçada exigia um preço: Kael sentia a dor física de cada dano sofrido pelo frame. Mestre Jairo contatou-o via rádio, a voz mais grave do que nunca.
— Kael, não lute contra o feedback! — Jairo gritou. — A Torre quer se auto-reparar usando as peças do Sucata. Deixe que o fluxo passe através de você. O topo não é um destino, é uma escotilha de lançamento. Algo está esperando para ser libertado.
Kael forçou o Sucata a avançar, sobrecarregando o núcleo instável. Faíscas azuis iluminavam o túnel de fibra ótica. Com um último esforço, ele rompeu a barreira final. O ar no topo da Torre não era oxigênio; era eletricidade estática. O sistema de dívidas no seu visor, que o perseguira por toda a vida, entrou em colapso total, os dígitos girando em desespero até congelarem em zero.
Ele não estava apenas no topo. Ele estava diante de uma escotilha colossal de titânio, selada por uma sentinela esguia, desprovida de humanidade. O Sucata, crivado de cicatrizes, posicionou-se para o combate final. O sistema de dívidas caíra, mas algo muito maior, ancestral e faminto, despertava sob seus pés. Kael olhou para o horizonte além da barreira de energia que começava a falhar, vendo pela primeira vez um mundo vasto, verde e não destruído. A Torre era uma prisão, e ele acabara de quebrar a fechadura.