A Primeira Fresta de Luz
O som seco da madeira cedendo sob o martelo de Lucca ecoou pelo pátio como um veredito. Beatriz observou, com as mãos enterradas nos bolsos do casaco, enquanto ele retirava uma ripa podre da estrutura da varanda. O cheiro de mofo e terra úmida subia do solo, uma fragrância de decomposição que ela não conseguia mais ignorar.
— Não é só a estética, Beatriz — disse Lucca, sem erguer os olhos. Ele limpou o suor da testa com o antebraço, deixando um rastro de poeira cinzenta na pele. — A umidade subiu pela fundação. Se tentarmos apenas pintar por cima, como você sugeriu, o teto da ala leste virá abaixo na próxima chuva forte. A casa não está apenas velha; ela está tecnicamente condenada.
Beatriz sentiu um aperto no peito, uma sensação física de estar sendo empurrada para fora de sua própria vida. Ela tinha vindo para fechar um negócio, não para realizar uma autópsia em um casarão que, para ela, deveria ser apenas um ativo financeiro.
— Existe um orçamento para reparos mínimos — ela insistiu, embora sua voz soasse estranhamente frágil. — O corretor disse que investidores buscam o charme do histórico. Podemos estabilizar e passar o problema adiante.
Lucca parou o trabalho. Ele segurou o pedaço de madeira, agora esfarelando em suas luvas, e o estendeu para ela. O material estava tão comprometido que parecia papelão molhado. — Ninguém vai comprar isso. E, francamente, ninguém deveria morar aqui até que a base seja refeita.
O sol da tarde, filtrado pelo telhado esburacado do pátio, cortava a poeira em feixes dourados que pareciam zombar da exaustão de Beatriz. Ela segurava a lixa com a ponta dos dedos, como se o pedaço de papel abrasivo fosse um inseto peçonhento. À sua frente, uma viga de peroba do campo, carcomida pelo tempo, exigia atenção que ela não queria dar.
— Não é para acariciar a madeira, Beatriz. É para expor a fibra — Lucca disse, aproximando-se. Seus dedos grandes cobriram os dela sobre a lixa. Com um movimento firme e controlado, ele a forçou a aplicar pressão. — Sente? Se você apenas passar a mão, só vai polir a sujeira. Você precisa chegar no cerne.
Beatriz sentiu o atrito vibrar em seus ossos. A madeira, antes um objeto inerte, começou a revelar veios avermelhados sob a camada de verniz descascado. Ao lado, o Sr. Osvaldo, sentado em sua cadeira de vime, observava cada movimento com olhos de falcão, o silêncio dele um julgamento constante sobre sua falta de jeito.
— A avó de vocês não tratava a casa como um estorvo — Osvaldo soltou, sem tirar os olhos do jornal amarelado. — Ela sabia que, se a fundação apodrece, o resto é apenas cenário para um desastre anunciado.
Beatriz ignorou o aperto no peito, focando no som da lixa. Pela primeira vez, a casa não parecia um objeto, mas um organismo que exigia cuidado para não morrer. Mas a trégua durou pouco. O som da campainha de bronze, um tilintar metálico e seco, cortou o silêncio. Um oficial da prefeitura, vestindo um colete cinza que parecia atrair todo o calor do pátio, entrou sem esperar convite. Seus olhos percorreram as paredes descascadas e pousaram no documento em suas mãos.
— Beatriz Albuquerque? — O oficial estendeu o papel com uma formalidade burocrática que fez o ar parecer mais rarefeito. — Notificação de interdição preventiva. Risco estrutural iminente.
Beatriz pegou a folha. Enquanto seus olhos percorriam as cláusulas, a realidade se impôs com a precisão de um golpe: trinta dias. Trinta dias para regularizar a fundação, ou a casa seria selada pelo poder público. Uma multa astronômica seria aplicada em caso de não cumprimento.
Sozinha no pátio, Beatriz sentou-se à mesa de ferro, cujos pés bambos denunciavam o descuido de anos. Diante dela, o caderno de receitas da avó repousava ao lado da notificação. Ela abriu o caderno. As páginas estavam manchadas de gordura e tempo, contendo não apenas instruções, mas anotações marginais sobre a vizinhança: datas de festas, nomes de pessoas que precisavam de consolo. Aquilo não era apenas um manual; era o mapa de um pertencimento que ela tentara ignorar.
O celular vibrou sobre a mesa. Era o corretor imobiliário, insistindo na visita técnica agendada para a manhã seguinte, falando em "potencial de demolição". Beatriz olhou para a notificação de risco estrutural e fez a conta mental. O custo da multa, somado ao valor dos reparos, engoliria cada centavo da venda. O lucro era uma miragem. Para sobreviver, ela não precisava vender a casa; ela precisava salvá-la, ou a casa a destruiria primeiro. Ela pegou o telefone, pronta para cancelar a reunião. A fuga não era mais uma opção.