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Chapter 1: O Pátio das Sombras e o Chá Amargo

Beatriz chega ao casarão da avó com o objetivo de vendê-lo rapidamente, mas encontra o imóvel em estado crítico de conservação. O Sr. Osvaldo, vizinho e guardião da memória local, a confronta sobre a responsabilidade social do patrimônio. Lucca, o engenheiro, confirma que a casa é inviável para venda imediata devido a falhas estruturais graves, deixando Beatriz sem saída financeira.

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O Pátio das Sombras e o Chá Amargo

O portão de ferro cedeu com um rangido que Beatriz sentiu vibrar nos dentes. O pátio central do casarão, outrora um santuário de luz filtrada pelas trepadeiras, agora era um poço de fuligem e sombras. A poeira, espessa como uma pele morta sobre os móveis abandonados, tornava cada passo uma marca de invasão. Beatriz não estava ali para ser a neta que herdou memórias; estava ali para ser a liquidante que enterraria o passado sob uma escritura de venda. Ela deixou a mala no piso de ladrilho hidráulico, cujas cores desbotadas ainda sugeriam o desenho de flores, e sentiu o ar estagnado, impregnado com o cheiro de madeira úmida e chá esquecido, pesar sobre seus ombros.

Sua mão, trêmula, tocou a mesa de centro. Ali, sob uma camada cinzenta, um objeto se destacou: o caderno de receitas de capa de couro craquelado. Era a caligrafia da avó, firme e precisa. Beatriz abriu o livro, e o papel amarelado soltou um suspiro de baunilha e cravo que a atingiu como um soco. A urgência pragmática que ela cultivara em anos de escritório em São Paulo vacilou, mas ela forçou o fechamento do caderno. Não havia espaço para nostalgia em um balancete financeiro.

— Não deveria estar aqui — uma voz rouca ecoou do corredor lateral.

Beatriz sobressaltou-se. Sr. Osvaldo estava parado na penumbra, os olhos miúdos cravados nela com uma hostilidade que não era apenas de vizinhança; era defesa. Ele segurava uma chave inglesa, o metal frio refletindo a luz fraca da claraboia suja.

— É minha casa, Sr. Osvaldo. Ou melhor, o que restou dela — ela respondeu, tentando manter a voz firme enquanto caminhava até a cozinha para se afastar da presença dele.

Na cozinha, o fogão antigo parecia um gigante de ferro adormecido, coberto por uma crosta de gordura e negligência. Beatriz tentou remover a sujeira com um pano, mas seus dedos latejavam de exaustão. Ela só queria assinar os papéis da imobiliária e esquecer aquele lugar. O vizinho, porém, não a deixou em paz. Ele entrou sem convite, pegou o bule de cerâmica e começou a manuseá-lo com a precisão de quem conhecia cada canto daquela casa melhor que a própria dona.

— O carvão está úmido. Se usar assim, só vai soltar fumaça — ele murmurou, ignorando o pedido implícito de que se retirasse. — O bairro tem olhos, Beatriz. Essa casa é um patrimônio. Se você não cuidar, a prefeitura será avisada.

Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto. — Avisada de quê? É uma propriedade privada. Eu tenho o direito de decidir o que fazer com o que é meu.

— Você tem o direito de ser negligente, mas não de destruir a história de um quarteirão inteiro — Osvaldo rebateu, deixando o bule sobre o balcão. Sua calma era mais aterrorizante que um grito. — Se você não honrar a manutenção, o bairro não vai permitir que você simplesmente a venda para quem vai derrubá-la.

Antes que ela pudesse responder, uma batida na porta interrompeu o embate. Era Lucca, o engenheiro contratado para a vistoria técnica. Ele entrou com a postura de quem não tinha tempo a perder, agachando-se perto da parede descascada com uma lanterna de cabeça que cortava a penumbra com precisão cirúrgica. Beatriz observou, acuada, enquanto ele tocava a superfície com dedos calejados, sentindo a vibração da estrutura.

— O reboco não é o problema, Beatriz — Lucca disse, sem desviar os olhos de uma rachadura que subia como um raio em direção ao teto. Ele deu uma batidinha seca em uma coluna de madeira. O som foi oco, doente. — Isso aqui é infiltração de longa data. A fundação está cedendo. Se você tentar colocar essa casa à venda como está, qualquer vistoria técnica vai derrubar o seu preço antes mesmo de você abrir a porta da frente.

Beatriz sentiu o estômago revirar. A casa deveria ser o seu bilhete de saída, não uma âncora.

— Quanto? — ela perguntou, a voz falhando.

Lucca levantou-se, limpando a poeira das calças. — Para tornar isso minimamente seguro e legalizável? O custo de reforço estrutural, sem contar a adequação elétrica que o Sr. Osvaldo mencionou, é proibitivo. Você não tem esse capital, tem?

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo gotejar de uma torneira distante. Beatriz olhou para o caderno de receitas sobre a mesa, depois para as paredes que pareciam se fechar ao seu redor. O lucro que ela esperava havia acabado de evaporar, deixando-a presa em um casarão que exigia muito mais do que ela podia oferecer.

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