Compensação Emocional
O silêncio na cobertura de Arthur não era de paz; era uma trégua armada, carregada com a eletricidade estática de uma aliança forjada no desespero. Helena observava o reflexo das luzes de São Paulo contra o vidro temperado, sentindo o peso do dispositivo de vigilância que ele a forçara a usar. O tablet à sua frente, aberto na auditoria que provava como o império de Arthur fora erguido sobre a ruína de seu pai, parecia queimar a madeira da mesa de centro. Ela não era mais apenas uma noiva de fachada; era a detentora de uma arma que poderia destruir ambos.
— O jogo mudou, Helena — Arthur disse, a voz cortante enquanto ele conferia uma tela de segurança secundária. Ele não estava sentado; ele estava em movimento, a gravata frouxa, revelando uma vulnerabilidade que ele tentava ocultar sob a disciplina férrea. — O chantagista não quer apenas o fluxo de caixa da holding. Ele quer os arquivos físicos que estão selados no seu antigo escritório. Eles estão forçando as fechaduras eletrônicas agora mesmo. Eles querem o que você sabe, e não vão esperar pelas 48 horas do seu prazo de ativos.
Um alarme metálico perfurou a tensão, um som de invasão que não permitia hesitação. Arthur não pediu permissão; ele atravessou a sala, pegou a mão de Helena com uma urgência visceral e a puxou em direção à saída de serviço. A cobertura, antes um símbolo de status, tornara-se uma armadilha.
O asfalto da Rua Oscar Freire brilhava como um espelho negro sob a chuva torrencial. Arthur dirigia com uma precisão cirúrgica, os nós dos dedos brancos contra o couro do volante. Dois SUVs pretos, sem placas, surgiram do nada, mantendo uma distância predatória. A perseguição não era por dinheiro; era para silenciar a verdade.
— Se eles nos interceptarem, a auditoria morre com a gente — Helena murmurou, a voz firme apesar da adrenalina que subia por sua garganta.
— Eles não vão chegar a você — Arthur respondeu. No momento em que o SUV da direita colidiu contra a lateral do carro, enviando um solavanco violento, Arthur girou o volante, protegendo o lado de Helena com o próprio corpo. O impacto foi seco, o metal retorcido gritando contra o concreto. Arthur foi lançado contra a porta, um corte profundo abrindo-se em seu ombro, o sangue manchando a camisa social. Ele não parou. Com um movimento ágil, ativou um bloqueador de sinal, cegando os rastreadores, e manobrou o veículo para um beco estreito, perdendo-se na escuridão dos Jardins.
Horas depois, em um refúgio isolado nos arredores, o silêncio era pontuado apenas pelo estalar da lareira. Arthur estava sentado à mesa de carvalho, a camisa entreaberta, o ombro enfaixado de forma rudimentar. Helena, com as mãos firmes apesar da trepidação interna, umedecia um pano com antisséptico. O cheiro de álcool e terra invadia o ambiente.
— Você não precisava ter se colocado na frente — disse Helena, sem erguer o olhar. A ponta de seus dedos, ao roçar a pele quente dele perto do corte, entregava uma hesitação que ela não podia mais esconder.
— O contrato exigia proteção — Arthur respondeu, o maxilar travado. — Minha consciência, desta vez, exigiu mais. Você tem a auditoria, Helena. Se o chantagista me derrubar, você perde sua única alavanca. Isso não foi altruísmo. Foi estratégia.
Helena parou o movimento, confrontando a frieza que ele usava como armadura. — Pare com isso. Nós dois sabemos que a auditoria liga meu pai à sua ruína. Estamos no mesmo barco de traições, Arthur. Você foi traído por quem confiava, assim como eu. O chantagista sabe sobre o meu pai, não sabe? Ele sabe que a manipulação não foi um erro, mas uma escolha.
Arthur ergueu os olhos, a máscara de ceticismo finalmente cedendo. — Ele sabe. Se isso vier à tona, a sua dignidade será estraçalhada junto com o meu legado. A única saída é o contra-ataque. Vamos usar o noivado. Vamos transformar essa farsa em uma arma pública.
Helena olhou para as provas no tablet e depois para o homem que, apesar de tudo, escolhera protegê-la. A vingança contra Ricardo parecia agora um objetivo pequeno demais. Ela estava pronta para destruir o chantagista, mesmo que, para isso, tivesse que se tornar a aliada mais perigosa de Arthur.