O Custo do Poder
A Votação no Escuro
A sala de reuniões da holding cheirava a café frio e couro caro. As persianas estavam quase fechadas, deixando apenas listras finas de luz cortarem a mesa oval de mogno. Quinze cadeiras ocupadas. Quinze rostos que Ricardo conhecia desde menino — e que agora o olhavam como se ele fosse um risco estatístico.
O presidente interino do conselho, um homem de setenta e poucos anos chamado Álvaro Mendes, batia a caneta contra a pasta com ritmo de metrônomo.
— Estamos no item único da pauta de hoje: moção de destituição do cargo de presidente executivo por perda de confiança material. O proponente é o conselheiro Marcelo Almeida.
Marcelo não se levantou. Apenas inclinou a cabeça, o sorriso educado de quem já ganhou antes de começar.
— A associação pública de Ricardo com essa… noiva de conveniência gerou instabilidade objetiva. Dois fundos de pensão cancelaram reuniões esta semana. Um conselheiro histórico pediu demissão ontem à noite. O mercado interpreta isso como fraqueza de governança. Não é pessoal. É aritmética.
Ricardo permaneceu sentado, mãos cruzadas sobre a mesa, olhar fixo no centro da madeira. Não respondeu. Não precisava. Cada silêncio dele era lido como arrogância pelos que já haviam decidido.
Álvaro abriu a votação.
— Quem vota sim à destituição?
Mãos subiram uma a uma. Primeiro os alinhados com Marcelo. Depois os hesitantes, que baixavam os olhos ao erguer o braço. O placar digital na parede marcava 8 a 4 a favor da moção quando chegou a vez de dona Clara, a única mulher além da secretária, viúva do antigo sócio fundador.
Ela olhou para Ricardo por longos segundos.
— Abstenho.
O número piscou: 8–4–1.
Faltava um voto para a maioria absoluta de nove.
O último nome na lista era Eduardo Fontes, o mais jovem do conselho, primo distante de Ricardo. Ele pigarreou.
— Eu… sim.
O placar virou 9–4–1.
Álvaro deixou o silêncio se estender por três batidas de relógio antes de falar.
— A moção está aprovada por maioria absoluta. Ricardo Almeida está destituído do cargo de presidente executivo com efeito imediato. A presidência interina passa para—
A porta dupla de mogno se abriu com força controlada.
Helena entrou sozinha.
Vestido azul-marinho de corte reto, salto médio, pasta preta fina na mão esquerda. Nenhum batom vermelho de guerra; apenas o contorno pr
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