A Verdade no Papel
A porta se fechou com um clique seco. O silêncio do escritório engoliu o eco dos passos de Ricardo. Helena ficou parada no meio da penumbra, os lábios ainda quentes do beijo que não deveria ter acontecido. O ar-condicionado zumbia baixo, mas não conseguia apagar o calor que subia pelo pescoço dela. Passou o dorso da mão na boca uma única vez, como se pudesse apagar a memória, e caminhou até a mesa. A pasta de couro preto que Tia Sofia entregara estava exatamente onde Ricardo a deixara: ao lado do abajur apagado, quase invisível na luz fraca que vazava da cidade lá embaixo.
Sentou na cadeira dele — sem pedir permissão, porque pedir permissão agora parecia ridículo — e puxou a pasta para si. Os dedos tremiam levemente ao abrir o fecho. Não era medo. Era raiva contida, o tipo que demora anos para se formar e segundos para explodir.
A primeira folha era um registro de hipoteca de 2009. Assinatura do pai dela. Data coincidente com o primeiro grande empréstimo que a holding pegara para “expansão do terminal”. Só que a letra da assinatura tremia de um je
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