O Cerco Fecha
A Foto que Não Deveria Existir
O Bentley preto deslizava pela avenida Paulista como se o asfalto lhe devesse reverência. Helena mantinha o celular virado para baixo sobre a coxa, a tela ainda quente do último toque. Acabara de deixar o apartamento de Ricardo — a pasta de couro com os documentos da transferência de 15% das ações votantes ainda estava no banco ao lado, pesada como uma sentença aceita.
O telefone vibrou uma única vez, seco, quase educado.
Número desconhecido.
Ela virou a tela.
A foto ocupava todo o display: Tia Sofia, de perfil, saindo da Clínica Serene em Higienópolis. O cardigã bege que Helena lhe dera no último aniversário, a bolsa de couro envelhecido pendurada no antebraço, o porte ereto apesar dos ombros ligeiramente curvados. A data no canto inferior direito: hoje, 22:17.
Abaixo da imagem, uma única linha de texto:
“Ela não pode ficar aí por muito tempo. Segunda-feira é depois de amanhã. Manda um abraço pra titia.”
O ar dentro do carro ficou subitamente rarefeito.
Helena apertou o botão lateral do celular com tanta força que a articulação do polegar doeu. A foto desapareceu, mas a composição da imagem já estava gravada: a marquise da clínica, a placa discreta, o porteiro de uniforme cinza olhando para o lado errado. Marcelo sabia exatamente onde ela estava.
— Carlos — chamou ela, voz baixa, sem tremer.
O motorista ergueu os olhos pelo retrovisor.
— Sim, senhora.
— Não vá para o hotel ainda. — Ela respirou curto. — Leve-me direto para o escritório do senhor Almeida no Itaim. Agora.
Carlos apenas acenou com a cabeça e começou a manobrar para a faixa da esquerda. Nenhum comentário, nenhuma pergunta. Ele era pago para não registrar hesitação.
Helena abriu o app de mensagens criptografadas que usava com a enfermeira particular de Tia Sofia. Digitou rápido, usando o código combinado meses antes:
“Coração acelerado hoje. Leve ela para o plano B antes da meia-noite. Sem ligação. Confirme com ‘sim, doutor’.”
Enviou.
Aguarda.
O carro balançou levemente ao entrar na Brigadeiro. No retrovisor, um Audi Q8 preto com faróis apagados se posicionou a três carros de distância. Não era coincidência. Já estava lá quando saíram da garagem subterrânea de Ricardo.
Helena sentiu o couro do banco grudar na palma da mão suada. Não era medo puro — era cálculo sob pressão. Marcelo não mandaria a foto se
Preview ends here. Subscribe to continue.