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Chapter 3: A Herança do Escândalo

Beatriz frustra uma invasão ao escritório de Rafael, mas descobre que o dossiê que ele possui é uma faca de dois gumes: ela é a isca para destruir Ricardo, mas Rafael também está implicado nos crimes. O noivado de fachada torna-se uma aliança perigosa sob a ameaça de um jantar com investidores.

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A Herança do Escândalo

O silêncio na mansão de Rafael não era paz; era uma vigilância armada. Três dias após o baile, o eco dos olhares da elite paulistana ainda parecia vibrar nas paredes de mármore, um julgamento que se transformara em uma jaula de luxo. Beatriz caminhava pelo corredor em direção ao escritório, seus passos abafados pelo tapete persa, mas sua mente estava presa na assinatura que Ricardo tentava, por todos os meios, invalidar.

Ao chegar à porta de carvalho, ela parou. Estava entreaberta. O som de papéis sendo remexidos ecoou lá dentro, seco e metódico. Não era Rafael; ele estava em uma reunião no centro da cidade, garantindo que o mercado absorvesse a notícia do noivado como uma jogada de mestre. Beatriz empurrou a porta, o coração batendo com uma precisão fria. Dois homens de terno escuro, estranhos ao corpo de segurança habitual, estavam de costas para ela, voltados para a mesa de mogno. Um deles segurava uma pasta de couro que Beatriz reconheceu instantaneamente: o dossiê das contas offshore de Ricardo. O documento que provava a fraude, o mesmo que mantinha o ex-marido refém de sua própria ganância.

— O que vocês estão fazendo aqui? — A voz de Beatriz cortou o ar, desprovida de medo. Ela não era mais a esposa submissa que Ricardo abandonara; ela era uma peça de xadrez que acabara de decidir trocar de lado.

Os homens giraram, surpresos. Beatriz não hesitou. Ela não precisava de armas; precisava de autoridade. Com a frieza de quem não tem mais nada a perder, ela apontou para a porta. — Se querem sair daqui sem que eu chame a segurança do Rafael e torne a invasão de vocês o assunto principal do almoço da Faria Lima, sugiro que deixem a pasta e saiam. Agora.

Eles hesitaram, mas a ameaça de um escândalo público, a moeda mais cara daquela elite, pesou mais do que o medo de Ricardo. Quando os homens se retiraram, Beatriz sentiu a adrenalina recuar, deixando um rastro de desconfiança. Ela não entregou o dossiê. Ela o abriu.

Horas depois, Rafael retornou. Encontrou Beatriz no escritório, o ambiente banhado pela luz fria do fim de tarde. Ele não se surpreendeu ao vê-la ali. Caminhou até a mesa, parando perigosamente perto, a sombra de seu corpo caindo sobre o dossiê que ela mantinha aberto.

— Ricardo não vai parar de tentar entrar no meu servidor — Beatriz disse, a voz firme, embora a exaustão latejasse em suas têmporas. — O noivado de fachada era para ser uma proteção, não uma convocação para guerra aberta. O que você está escondendo aqui que o torna tão obcecado?

Rafael ergueu o olhar. Seus olhos, escuros e impenetráveis, percorreram Beatriz. — A proteção que ofereci não é um escudo passivo, Beatriz. É uma alavanca. Se você quer manter o seu nome e o que resta do seu patrimônio, precisa aceitar que o alvo nas suas costas não é um acidente. É a isca que mantém Ricardo distraído.

Beatriz sentiu o sangue gelar. Ela se lembrou do que encontrara na última folha do dossiê: uma série de códigos de transação que não pertenciam apenas a Ricardo, mas a uma holding que Rafael controlava. O documento estava incompleto. Faltava a página que detalhava a origem dos fundos desviados, a peça que incriminaria ambos.

— Você quer que eu seja a vitrine? — ela perguntou, mantendo a voz estável, recusando-se a recuar um centímetro. — Para que ele foque em mim enquanto você drena o que resta do império dele? Você não está me protegendo, Rafael. Você está me usando para limpar o seu próprio rastro de crimes corporativos.

Rafael sorriu, um gesto desprovido de qualquer calor. — Você é mais astuta do que ele jamais admitiu. Sim, você é a isca. Mas iscas também podem decidir quem será devorado. O jantar com os investidores será hoje à noite. Ricardo estará lá. Ele precisa ver que você não é apenas uma ex-mulher buscando um novo sobrenome, mas a peça que sustenta minha próxima aquisição.

Ele se aproximou, sua mão roçando o dossiê. — Você tem a assinatura legal para bloquear as transferências dele. Se você for comigo, se você jogar o papel de noiva devotada, eu garanto que ele nunca mais tocará em um centavo seu. Mas se você tentar usar esses papéis sozinha, Ricardo destruirá você antes que o sol se ponha amanhã.

Beatriz olhou para o dossiê, depois para Rafael. A armadilha estava armada. Ela não era mais apenas uma vítima do divórcio; era uma cúmplice forçada em uma guerra corporativa onde a verdade era apenas um detalhe negociável. Ela guardou os papéis na gaveta e trancou, sentindo o peso da chave no bolso. O jogo tinha mudado. Ela não seria apenas a isca; ela seria a única com a chave para destruir ambos, se necessário. Enquanto Rafael se afastava para se preparar, Beatriz percebeu a cruel realidade: ela estava presa em um refúgio de vidro, onde cada gesto de proteção era, na verdade, uma nova corrente.

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