A Primeira Prova de Fogo
O closet de Rafael não era um espaço de conveniência; era um cofre de precisão, forrado em carvalho escuro e luzes embutidas que dissecavam cada fibra do vestido azul-noturno de Beatriz. Ela observou seu reflexo. A seda era uma armadura, mas a etiqueta da grife, ainda intacta, queimava sua pele como um lembrete: ela era um ativo. Uma peça no tabuleiro de xadrez de Rafael contra Eduardo.
O som de passos firmes no mármore ecoou antes mesmo de Rafael surgir no reflexo. Ele não carregava a aura de um pretendente; era um estrategista avaliando uma ferramenta.
— O colar está desalinhado — disse ele. A voz era desprovida de calor, mas carregava uma autoridade que exigia obediência.
Beatriz não se moveu, mantendo o queixo erguido. Os dedos de Rafael, frios e precisos, tocaram sua pele. O ajuste do fecho de diamantes não foi um carinho, mas uma marcação de território. Ele a girou levemente, a proximidade forçando Beatriz a sentir o aroma amadeirado de seu perfume.
— Lembre-se — sussurrou ele, os olhos fixos nos dela através do espelho. — Eles não estão olhando para você porque querem a sua queda. Estão olhando porque, a partir desta noite, você é minha. A dúvida é o que os mantém à distância. Não os decepcione.
*
O ar-condicionado do salão de baile do Hotel Unique parecia insuficiente para conter a voltagem da elite paulistana. Beatriz sentiu o peso dos olhares como uma pressão física, mas a mão de Rafael na base de sua coluna era um lembrete tático: ela estava sob a proteção da marca mais agressiva da Faria Lima.
Os sussurros cessaram conforme caminhavam. Beatriz não desviou o olhar. Ela não era mais a mulher abandonada que Eduardo deixara com os bens congelados; ela era a noiva do homem que Eduardo temia.
— Relaxe os ombros, Beatriz — Rafael murmurou. — Se demonstrar medo, eles vão farejar o sangue antes mesmo do primeiro champanhe.
— Não é medo — ela respondeu, a voz firme. — É aversão ao espetáculo.
— O espetáculo é a nossa moeda de troca. Aceite o papel.
Antes que ela pudesse retrucar, uma sombra bloqueou o caminho. Eduardo estava lá, com aquele sorriso predatório que Beatriz conhecia bem demais. Ele segurava uma taça de cristal, observando-os com desdém.
— Rafael. Beatriz — a voz de Eduardo era melosa, carregada de uma condescendência que fazia o estômago de Beatriz revirar. — Vejo que encontrou um novo patrono para financiar seus caprichos. Espero que tenha lido as entrelinhas. O Rafael é conhecido por descartar ativos quando perdem a utilidade.
Beatriz sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas sua mão permaneceu firme. Ela abriu a boca para responder, mas Rafael foi mais rápido. Ele deu um passo à frente, bloqueando a visão de Eduardo.
— Eduardo — a voz de Rafael era um barítono gélido, carregado de uma ameaça que fez Eduardo recuar um milímetro. — O que você chama de 'ativo' é a minha noiva. O que você chama de 'capricho' é a minha prioridade. Se tocar no nome dela novamente, o mercado saberá exatamente quão desesperado você está para manter o controle sobre o que não lhe pertence mais.
O silêncio tornou-se absoluto. Eduardo, pego de surpresa pela agressividade pública de Rafael, tentou manter a pose, mas o tremor em sua mão ao segurar a taça o traiu. Rafael não esperou pela resposta; ele simplesmente apertou a mão de Beatriz, selando a farsa diante de todos. O flash das câmeras iluminou o rosto de Eduardo, capturando a derrota, enquanto Rafael a conduzia para o centro do salão.
*
De volta à cobertura, o silêncio era mais pesado que o barulho do gala. Rafael, chamado para uma reunião de emergência, deixara Beatriz sozinha. A autonomia que ela comprara no contrato parecia subitamente frágil.
Beatriz caminhou até o escritório. O ambiente era estéril. Ao mover um apoio de papel de cristal, um detalhe chamou sua atenção: uma gaveta lateral estava entreaberta. Dentro, não havia apenas relatórios, mas uma pasta de couro pesado com selos de um escritório de advocacia que ela reconhecia: o mesmo que gerenciava o patrimônio de seu avô antes da falência forçada.
O medo era um formigamento frio em suas mãos. Ela abriu a pasta. Não era um contrato de noivado. Era uma sentença que revelava que sua união com Rafael não era apenas uma manobra contra Eduardo, mas a chave para uma herança que destruiria ambos se revelada. O som da chave na porta interrompeu seus pensamentos; o perigo real estava apenas começando.