Café da Manhã sobre Vidro Quebrado
O café na porcelana fina da cobertura de Rafael estava frio, uma temperatura que Beatriz sentia infiltrar-se em seus ossos. Lá fora, o horizonte de São Paulo era um borrão de luzes cinzentas sob o amanhecer, uma vista que, em outros tempos, teria sido o símbolo de sua ascensão social. Agora, era apenas o cenário de sua rendição. Ela observou o reflexo de seu rosto na superfície negra do líquido: os olhos cansados, porém alertas, recusando-se a baixar a guarda, mesmo quando a notificação em seu celular — o bloqueio total de suas contas pessoais por uma manobra jurídica de Eduardo — confirmava que o cerco estava completo.
Rafael entrou no ambiente sem fazer barulho. O som de seus sapatos de couro no mármore era o único ruído, além do zumbido estéril do ar-condicionado central. Ele não se sentou. Permaneceu de pé, ajustando os punhos da camisa com uma precisão que Beatriz percebeu ser tão calculada quanto o restante de sua existência. Ele não lhe ofereceu um bom dia, nem conforto. Ele lhe ofereceu um documento.
— Eduardo não vai parar — a voz de Rafael cortou o silêncio, desprovida de qualquer empatia, mas carregada de uma lógica brutal. — Ele quer que você seja vista como a ex-esposa desamparada, a mulher que precisa de autorização para comprar um café. Ele comprou os credores, Beatriz. Se você não contra-atacar agora, a humilhação pública será apenas o começo.
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas sua postura permaneceu impecável. Ela não era uma mulher que desmoronava sob pressão; ela era uma mulher que a transformava em munição. Ela encarou o contrato sobre a mesa. Era uma pasta de couro preto que parecia pesar toneladas.
— Você não está fazendo isso por caridade, Rafael. O que você ganha com um noivado de fachada? — A pergunta dela foi direta, desarmando a aura de superioridade que ele tentava projetar.
Rafael deu um passo à frente, entrando em seu espaço pessoal. O perfume dele, uma mistura de sândalo e algo metálico, era intimidante.
— O mercado é um ecossistema predatório — ele disse, com um brilho cínico nos olhos. — Eduardo planeja uma fusão hostil contra meu grupo. Ele precisa de uma imagem pública de estabilidade e sucesso para convencer os investidores. Se eu o desmoralizar primeiro, exibindo a mulher que ele tentou destruir como minha futura noiva, o valor das ações dele despenca. É uma jogada de xadrez, Beatriz. Você é a peça que eu preciso para dar o xeque-mate.
Beatriz abriu a pasta. Seus dedos, embora firmes, traíram um leve tremor ao folhear as cláusulas. Ela não era uma marionete, e a negociação começou ali, entre o café frio e a urgência de sua falência iminente. Ela leu cada termo, riscando com uma caneta que ele lhe entregou as exigências de submissão total, substituindo-as por cláusulas de autonomia financeira e liberdade de agenda.
— Eu não vou ser um acessório silencioso — ela afirmou, sua voz ganhando uma firmeza gélida que fez Rafael estreitar os olhos, quase em aprovação. — Se eu vou ser a sua noiva, eu serei a sua parceira de negócios. Eu quero o controle das minhas contas e a garantia de que, quando esse contrato terminar, minha reputação estará intacta.
Rafael observou-a por um longo momento. O cinismo em seu semblante deu lugar a uma curiosidade rara. Ele reconheceu, naquele instante, que ela era a única pessoa na sala que não estava tentando agradá-lo, mas sim sobreviver a ele. Ele aceitou as alterações com um aceno de cabeça quase imperceptível.
— Negócio fechado — ele murmurou, a voz baixa, carregada de uma promessa perigosa.
Ele empurrou a caneta pesada de metal em direção a ela. O movimento foi lento, deliberado. A luz da manhã refletia no metal, cortando o ar entre eles.
— O contrato garante sua segurança, Beatriz. Eduardo não poderá mais congelar seus ativos ou destruir sua imagem em público. Você terá o meu nome como escudo e o meu patrimônio como alavanca. Mas você está pronta para o custo de ser vista comigo?
Beatriz segurou a caneta. O metal estava frio, mas ela não hesitou. Ela sabia que, ao assinar, estava selando o destino de sua vida anterior e entrando em um jogo onde o risco era absoluto. Ela encarou Rafael, encontrando a mesma frieza que ela própria precisava adotar para sobreviver à elite de São Paulo. Com um movimento firme, ela assinou o documento. O som da ponta da caneta sobre o papel soou como um tiro na sala silenciosa. A farsa estava selada, e a guerra contra Eduardo estava apenas começando.