Chapter 12
Às 16h18, o homem de camisa clara já estava na varanda como se a casa tivesse sido colocada no nome dele antes mesmo do cartório. Lívia viu primeiro o brilho do sapato, depois a pasta fina comprimida sob o braço, depois o crachá meio virado no peito: fiscalização. O relógio da sala frontal bateu uma vez, seco, e Dona Nadir fechou a mão sobre o livro-caixa com a força de quem segura um dente arrancado. Faltavam dois minutos para as 16h20. Quatro dias para a venda. Agora, menos de dois para o selamento.
— Ninguém leva mais nada daqui — Lívia disse, antes que a voz do homem entrasse de fato na casa.
Ele não pediu licença. Apenas ergueu o papel da ordem e deixou Caio Menezes aparecer atrás dele, no vão da varanda, o telefone ainda colado ao ouvido. O advogado falava baixo, rápido, com o rosto duro de quem tenta empurrar uma porta fechada com o ombro.
— Eu já disse que a apreensão complementar não podia avançar sem…
Caio parou ao ver Lívia com a folha do livro-caixa entre os dedos. Ela ergueu o papel comprometedor só o suficiente para ele reconhecer a assinatura torta, as colunas de datas, a anotação sobre o movimento de caixas entre o cais, a oficina e o ponto do Jardim Europa. Não era o restante do livro. Não era tudo. Mas era a parte que ainda sangrava.
— Sem o quê, doutor? — ela perguntou. — Sem a parte que você mandou tirar?
O homem da fiscalização deu um passo para dentro. Bento, parado junto à ombreira da sala, avançou um meio passo também — não para ajudar, percebeu Lívia, mas para impedir que a humilhação virasse cena pública. Na rua, um motor ficou ligado por tempo demais. Em algum lugar da calçada, alguém observava a casa como se esperasse o desfecho para fotografar os destroços.
Caio baixou o telefone.
— Você está tornando isso mais feio do que precisa ser.
— Feio já está — Lívia respondeu. — Eu só estou deixando visível.
Ela abriu a folha na altura do peito, sem se aproximar demais. O gesto foi calculado, quase insolente: não bastava mostrar que tinha prova; precisava obrigá-los a ver que a prova ainda tinha dentes. O homem de camisa clara lançou um olhar rápido ao papel e depois a Caio, como quem pede autorização para esmagar aquilo ali e seguir a rotina.
Caio não autorizou. Tampouco negou.
Esse foi o primeiro recuo.
Lívia sentiu o risco mudar de forma. Não era mais apenas impedir o lacre. Era arrancar, em público, quem estava acima dele.
— Diga quem mandou — ela falou.
— Não tenho obrigação de negociar com você na frente da fiscalização.
— Tem, sim. Porque se entrarem agora, a folha vai junto. E a anotação do Jardim Europa também. E o nome que você está escondendo atrás dessa sua voz de escritório.
Bento resmungou alguma coisa que não chegou a virar palavra. O homem de camisa clara fez menção de avançar para pegar o papel, mas Lívia virou o corpo de lado, protegendo a folha com o antebraço. Ela viu, no reflexo do vidro da sala, Dona Nadir se mover atrás dela — não em fuga, mas como quem decide ficar na linha de tiro.
— Eu não vou repetir — Caio disse, mais baixo. — Se você insistir em bloquear a diligência, você faz a casa perder o pouco que ainda pode ser preservado.
— Preservado para quem? — Lívia devolveu. — Para o leilão? Para a compra marcada em quatro dias? Ou para a gente acima de você terminar de varrer o resto?
A palavra acima o atingiu. Não com susto. Com cálculo. Lívia percebeu porque o maxilar dele travou por um segundo antes de ele recuperar a expressão lisa.
Então ele ainda tinha medo.
— Você não sabe com quem está mexendo.
— Sei o bastante para ver que está tremendo sem parecer.
O homem de camisa clara pigarreou, impaciente.
— Doutor, o horário...
Caio ergueu uma mão sem olhar para ele.
— Espera.
O fiscal hesitou. Era suficiente. A autoridade de Caio ainda funcionava como um verniz, mas o verniz estava rachando diante do papel na mão de Lívia.
Dona Nadir saiu da cozinha com o livro-caixa apertado contra o peito. Não caminhou devagar; caminhou como quem atravessa o quintal para fechar a porteira antes da enchente. O rosto dela não pedia nada. Não havia súplica naquele gesto. Só a dignidade ferrada de quem foi obrigada a assistir a própria história ser medida por gente de crachá.
— Se você quer o nome, Caio, olha para mim — ela disse.
Ele olhou.
Dona Nadir abriu o livro na página já marcada pela dobra da mão. A folha tremia um pouco, mas a voz não.
— Foi daqui que tiraram a primeira mentira — ela falou. — E foi daqui que vocês acharam que podiam fazer a segunda sem ninguém notar.
Lívia viu o efeito no homem de camisa clara antes mesmo de ver no rosto de Caio. A fiscalização não se moveu. O fiscal estava ali para selar, não para entender. Mas o advogado entendeu: o livro-caixa inteiro estava naquela sala, dentro de uma mulher cansada demais para mentir e orgulhosa demais para implorar.
Caio deu um passo, finalmente deixando a varanda e entrando de vez no embate.
— Dona Nadir, isso não é o momento.
— O momento acabou faz tempo. Agora é o resto.
Lívia não tirou os olhos dele.
— Onde está o arquivo? — perguntou.
Caio apertou a mandíbula.
— Você já sabe onde procurar.
— Eu sei onde mandaram esconder. Quero saber por quê.
O homem de camisa clara soltou um som de impaciência, curto, agressivo.
— Doutor, com todo respeito...
— Sem respeito nenhum — Dona Nadir cortou, sem levantar a voz. — Quem entra a
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