Chapter 11
A folha amarela já estava pregada na madeira quando Lívia subiu a varanda. “Apreensão complementar. Lacre imediato em quatro horas.” O carimbo vinha seco, sem espaço para discussão. Quatro dias até a venda transferir a casa para mãos hostis; agora, nem isso parecia inteiro. Se o lacre entrasse antes do fim do dia, a investigação morria antes do prazo maior morrer com ela.
Dona Nadir segurava o livro-caixa contra o peito, os dedos brancos de força. À porta, o fiscal mantinha um pé na soleira como se já tivesse herdado a casa. Ao lado dele, um homem de camisa clara observava sem pressa, pasta fina sob o braço, o tipo de presença que não precisa se anunciar para ser a pior da sala.
— Isso aqui não sai da mão da minha família — Nadir disse, sem baixar os olhos.
Lívia leu a ordem rápido. “Itens não inventariados.” Ali cabiam o livro-caixa, a página marcada, qualquer prova que ainda ligasse a morte antiga ao encobrimento. Se levassem aquilo, levavam também a última chance de provar o que tinha sido apagado.
Ela ergueu a guia de remessa parcial que vinha dobrada no bolso.
— Então inventariem isto também — disse, aproximando o papel da luz. — A cadeia começa no cais, passa pela oficina e aponta para o Jardim Europa. Se vocês lacrarem sem conferir, o erro vai parar no processo.
O fiscal pegou o documento. A segurança no rosto dele vacilou um grau.
— Isso está vinculado ao expediente?
— Está vinculado ao que tentaram esconder — respondeu Lívia.
Ela não precisou dizer mais. A sigla, a sequência de saída, a remessa truncada: tudo batia com a pista do Jardim Europa. O homem de camisa clara inclinou a cabeça, avaliando a marca deixada pela frase no ar, não o papel.
Dona Nadir virou a página do livro-caixa com cuidado demais, como quem mexe em ferida aberta. Na folha aparecia a nota recente, a rasura grossa no meio e uma correção posterior por cima da mesma linha. Um registro de entrega no dia da morte antiga, seguido de remendo contábil para fingir outra história.
Lívia sentiu o estômago afundar. Não era desorganização. Era prova de circulação, dinheiro e encobrimento na mesma página.
Ela sacou o celular e fotografou a rasura, o carimbo, a data. O estalo da câmera pareceu uma afronta pequena, mas útil. O fiscal ergueu a cabeça na hora.
— Sem autorização.
— Então anote a recusa — disse Lívia. — Aí vão ter de explicar por que a página da morte foi corrigida depois da entrega.
O homem da camisa clara já estava mais perto da grade. Não entrou, não se apressou. Só confirmou, com a tranquilidade de quem sabe que a pressão verdadeira está fora do campo de visão.
O celular vibrou no bolso. Caio.
Lívia atendeu sem afastar o olhar do fiscal.
— Você ainda está aí? — a voz dele veio baixa, limpa demais. — Escuta: não sou eu que estou puxando isso sozinho.
— Então quem está? — ela perguntou.
— Gente acima de mim. E perdeu a paciência.
Na varanda, Nadir fechou a mão sobre a página marcada, como se pudesse impedir a ordem de atravessar o papel.
— Você quer o livro? — Lívia disse ao telefone.
— Eu quero que você não force uma apreensão total. Entrega o livro-caixa e eu seguro a casa por enquanto.
— Por enquanto não serve.
Caio soltou um riso curto, sem humor.
— Então a fiscalização entra inteira. Recolhe o que não estiver inventariado e sela o resto. Você decide se quer perder a prova ou a casa com gente dentro.
Ao fundo, Lívia ouviu teclas, vozes baixas, papel sendo virado. Não era blefe. Era procedimento já andando em outra mesa.
O fiscal estendeu a mão para o documento na outra mão dela
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