Chapter 7
O meio-dia já tinha passado, e o calor batia na calçada da oficina como se quisesse expulsar dali até a última vontade de resistir. Helena ainda segurava o cartucho de linha que Lia deixara sobre a mesa quando o emissário do cartório apareceu no batente, acompanhado de um homem de terno escuro que ela reconheceu de imediato pelo modo como olhou o lugar: não como quem vinha negociar, mas como quem vinha medir o que ainda restava para tomar.
A oficina não estava vazia. Havia duas clientes na parede do fundo, uma segurando o tecido no colo, outra fingindo escolher um zíper há tempo demais; duas costureiras não tinham largado a máquina; e a vizinha da mercearia, com a sacola de compras apertada contra o peito, se demorou na porta como se a presença dela pudesse sustentar alguma coisa. Helena agradeceu em silêncio por aquelas pessoas ficarem. Não por curiosidade. Por lealdade. Por medo de que a rua inteira assistisse ao desmonte.
— Dona Helena Valença? — o emissário perguntou, já com o envelope aberto na mão. — Nova ciência de urgência. O credor requereu antecipação da transferência.
A palavra caiu pesada, limpa demais, como se o cartório tivesse o direito de chamar violência de formalidade.
Helena estendeu a mão sem se mover um centímetro a mais do necessário.
— Então escreva isso direito — disse ela, sem desviar os olhos do homem. — Antecipação pedida não é antecipação concedida.
O emissário hesitou. O homem de terno escuro, ao lado dele, sorriu com a delicadeza ofensiva de quem já sabia a resposta antes da sala inteira ouvir. Helena reconheceu o rosto por fotografias de jornal e por uma ou outra menção atravessada nos dias ruins: representante de Otávio Brandão. Não era o dono do processo, mas trazia o cheiro da propriedade alheia com uma segurança irritante.
— Assine a ciência — insistiu o emissário.
— Eu assino. Mas o senhor também vai registrar que a oficina segue ocupada e que qualquer avanço fora do prazo será contestado — respondeu Helena.
Ela pegou a caneta. A mão não tremeu. O orgulho, naquele instante, foi uma ferramenta tão útil quanto o hábito de costura.
Antes que o emissário recolhesse o papel, um carro preto freou seco na rua, perto demais da calçada. A porta dianteira abriu e Guilherme saiu sem pressa, mas rápido o suficiente para que Helena entendesse: ele não tinha vindo por acaso. Veio porque soube. Veio porque escolheu aparecer ali, diante de todo mundo, no pior minuto possível.
Ele atravessou a calçada com o celular na mão e o rosto fechado de sempre, aquela frieza impecável que, em qualquer outra ocasião, a teria irritado. Naquele momento, porém, o que pesou não foi a expressão dele. Foi o fato de ter vindo.
— A petição de urgência foi suspensa hoje às oito e doze — disse ele, mostrando a tela ao emissário antes mesmo que o homem oferecesse resistência. — Sem nova decisão, qualquer tentativa de antecipar a transferência é abuso de procedimento.
O representante de Otávio estreitou os olhos.
— E quem é o senhor para garantir isso?
Guilherme não elevou a voz.
— O bastante para registrar a irregularidade e o suficiente para tornar seu avanço inútil por algumas horas.
Só algumas horas.
Helena sentiu a informação bater nela com o peso exato de uma pedra pequena e afiada. Não era uma salvação. Era uma trégua emprestada com juros.
O emissário, contrariado, recolheu o envelope. O homem de terno escuro tirou do bolso interno do paletó um cartão preto, simples demais para quem queria parecer importante, e o ergueu como quem oferecia uma ameaça polida.
— O doutor Brandão pediu para lembrar que a cidade é pequena — disse ele, sem olhar para Helena. — Todo gesto deixa rastro. Inclusive os de um Saldanha.
Algumas cabeças se viraram ao mesmo tempo. Seu Joaquim, da mercearia, fingiu reorganizar as caixas de fruta. A moça da papelaria atravessou a rua antes que o comentário se completasse. Mas o dano já estava feito. O nome de Guilherme, dito daquele jeito, parado na boca de um emissário, soou menos como proteção e mais como uma arma.
Helena percebeu o que o homem queria: não era apenas intimidá-la. Era tornar a presença de Guilherme cara demais para permanecer discreta.
E, de certa forma, conseguiu.
— Pode levar seu cartão de volta — disse Helena, com uma calma que custou caro. — Aqui ninguém coleciona avisos de inimigo.
O homem sorriu sem humor e guardou o cartão, mas não sem antes deixá-lo sobre o balcão por um segundo, como quem planta uma prova.
Guilherme avançou meio passo, o suficiente para ficar ao lado de Helena e não à frente. O gesto, pequeno, parecia calculado. Mas ela viu a tensão no maxilar dele, o tipo de contenção que não vinha de educação, e sim de custo.
— Minha família já soube — ele disse baixo, sem tirar os olhos do representante. — E não gostou.
Helena virou a cabeça para ele por um instante. Ele não explicou mais nada, mas não precisava. Naquele mundo, desafiar a família não era um gesto romântico. Era um tipo de desobediência que deixava marcas em mesa de jantar, em escritório e em herança.
A representante de Otávio recolheu os papéis com o cuidado de quem já tinha conseguido o que queria: medo espalhado.
— Aproveitem a tarde — disse, antes de se afastar. — Amanhã talvez haja menos gente para assistir.
Quando o carro negro virou a esquina, a oficina inteira soltou um ar que ninguém admitia estar prendendo.
Helena não se permitiu relaxar. Passou os olhos pelos clientes, pelas costureiras, pela vizinha com a sacola, pelas máquinas que continuavam ligadas para provar que o lugar ainda estava vivo. Se a rua visse a oficina cair, levaria junto o emprego de duas mulhe
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