O Peso do Passado
O silêncio dentro da limusine blindada era mais denso que o ar condicionado gelado. Beatriz mantinha o olhar fixo no reflexo das luzes da Marginal Pinheiros, que passavam como vultos indiferentes. A mão de Rafael repousava sobre o estofado de couro entre eles, um lembrete físico de que, embora o colunista Marcelo estivesse silenciado, ela ainda estava sob a mira de um predador que conhecia o preço de cada um de seus segredos.
— Você foi impecável hoje — a voz de Rafael cortou o silêncio, desprovida de qualquer calor. — A Fundação Alencar não suspeitou de nada. O contrato está sendo honrado com a precisão que eu esperava.
Beatriz não se virou. O peso de sua falência, agora transmutado em dívida pessoal com ele, era uma corda apertando seu pescoço.
— O preço da minha impecabilidade está ficando alto demais, Rafael. Esse teatro não compensa o risco que estou correndo.
Ele soltou uma risada curta. Sem aviso, sua mão se moveu, fechando-se firme sobre a dela. Não era um gesto de carinho, mas uma apropriação, uma reafirmação de posse que a forçou a encará-lo. Os olhos dele, escuros e impenetráveis, liam cada uma de suas defesas.
— O risco é o que mantém as coisas interessantes, Beatriz. Você já colocou o seu segredo na mesa. Agora, precisa aprender a viver com o fato de que eu sou o único que pode mantê-lo trancado.
Ao chegarem à mansão, a imponência da arquitetura de pedra e vidro parecia uma sentença de confinamento. Rafael a conduziu para dentro com uma mão firme em sua lombar, um toque que, embora protetor para os olhos dos seguranças, para ela, soava como a trava de uma cela. No escritório, o cheiro de mogno e couro envelhecido era uma austeridade feita sob medida para sufocar. Rafael contornou a mesa monumental e deslizou um envelope pardo pela superfície polida.
— A fase de exibição acabou — ele disse. — Agora, entramos na fase de consolidação. Abra.
Beatriz hesitou, o coração martelando contra as costelas. Ela abriu o lacre. Dentro, fotos granuladas e documentos de partilha que ela acreditava terem sido incinerados há anos. Eram registros de uma traição familiar que ela tentou enterrar, um segredo que, se revelado, não apenas destruiria sua reputação, mas cortaria o acesso a qualquer segurança que ela tentava construir para seu filho.
— Onde conseguiu isso?
— Eu não compro dívidas de quem não pesquiso profundamente. Você deveria saber que o meu interesse por você nunca foi casual.
Rafael foi interrompido por um toque estridente em seu celular. Com um olhar gélido, ele se afastou em direção à varanda para atender a uma chamada urgente sobre a fusão corporativa. Assim que a porta se fechou, Beatriz não se permitiu tremer. Ela contornou a mesa, movida por uma necessidade visceral de encontrar uma arma contra aquela chantagem. Seus olhos varreram as gavetas até que um detalhe na estante de arquivos, mal escondido por uma moldura de prata, capturou sua atenção.
Era uma pasta de couro desgastado, marcada com as iniciais de seu pai. Com os dedos trêmulos, ela destravou a trava metálica. O conteúdo não era o que ela esperava. Eram relatórios de vigilância detalhados, datados de meses antes do reencontro na gala, provando que Rafael a caçava muito antes de precisar de uma noiva para sua imagem pública. Ela era um alvo estratégico, não uma escolha. Enquanto ouvia os passos de Rafael retornando, ela percebeu que a farsa do noivado acabara de se tornar uma armadilha definitiva, e a prova de sua manipulação estava em suas mãos, no momento exato em que ele entrava na sala.