A Queda da Máscara
O trigésimo andar da Viana Corp não oferecia refúgio. A vista de São Paulo, um mar de luzes indiferentes, parecia zombar da fragilidade de Helena. Sobre a mesa de mogno, o tablet de Rafael exibia a manchete que selava o destino de ambos: a mentira de Milão, desmascarada com uma precisão cirúrgica que apenas alguém com acesso aos logs de voo privados poderia ter vazado.
Helena jogou a bolsa sobre a poltrona, o som seco ecoando no ambiente minimalista. Ela não esperou por um convite.
— O leilão começa em menos de doze horas, Rafael — disse ela, a voz firme, embora a adrenalina subisse por sua garganta como veneno. — O contrato previa proteção. Não que você me usasse como escudo humano enquanto vazava provas para os abutres da imprensa.
Rafael não se levantou. Ele mantinha os dedos entrelaçados sobre um documento, o olhar fixo nela com uma frieza que, desta vez, não parecia calculada, mas exausta.
— A imprensa sempre vai farejar sangue, Helena. O problema não foi a mentira, foi a sua hesitação em sustentá-la diante de Beatriz Viana — ele retrucou, o tom desprovido de qualquer traço de empatia. — Se você quer que a escritura da sua casa saia das minhas mãos, você precisa ser mais do que um rosto bonito em fotos promocionais. Você precisa ser uma aliada invisível.
Helena sentiu o sangue ferver. Ela caminhou até a mesa e, com um movimento deliberado, depositou o arquivo que havia subtraído do escritório de Marcelo. Era a prova da cumplicidade de Rafael no desvio que destruíra a empresa de seu pai.
— Eu não sou mais um peão, Rafael. Eu sei exatamente o que você fez. Se esse leilão acontecer, eu entrego isso ao conselho amanhã de manhã.
Rafael levantou-se lentamente. Ele contornou a mesa, aproximando-se com a lentidão de um predador que não precisa correr. Ele parou a poucos centímetros dela, o cheiro de sândalo e papel de escritório, antes familiar, agora parecia um aviso de perigo. Ele não se intimidou com a ameaça; em vez disso, estendeu a mão e trancou a porta do escritório com um clique audível.
— Você acha que este noivado é sobre uma fusão corporativa? — Ele baixou a voz, um sussurro áspero que vibrou no espaço entre eles. — Você foi escolhida porque o seu sobrenome é a única coisa que ainda me garante alguma credibilidade perante os acionistas que querem me derrubar. Você não tem noção do tamanho dos lobos que estão cercando a minha mesa.
— Então deixe que eles me devorem — Helena desafiou, mantendo o contato visual.
— Eles não querem apenas você, Helena. Eles querem a sua família. A dívida do seu pai não foi comprada por acaso; eu a comprei para impedir que o conselho a usasse como alavanca contra mim. Se eu cair, o primeiro ativo que eles liquidam é a sua mansão. Você seria expulsa de lá antes do pôr do sol.
O impacto daquelas palavras atingiu Helena com a força de um golpe físico. A raiva deu lugar a uma clareza gelada. Ela percebeu que, embora Rafael fosse o arquiteto de sua ruína financeira, ele era, paradoxalmente, a única barreira entre ela e a aniquilação total.
— Por que me contar isso agora? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.
— Porque a fachada caiu — ele admitiu, e pela primeira vez, uma sombra de vulnerabilidade cruzou seus olhos. — Milão não era sobre romance, Helena. Era uma tentativa de criar uma narrativa de estabilidade enquanto eu negociava a saída dos traidores do meu conselho. O noivado não é apenas um contrato de negócios; é a nossa armadura. Estamos presos um ao outro em uma guerra que você nem sabia que estava lutando.
Helena olhou para ele, vendo além da máscara do magnata implacável. O perigo ali não era apenas a perda de status; era a dependência perigosa que estava se formando. Ela aceitou manter o noivado, mas sob novos termos: se ele queria a proteção dela, teria que lhe dar acesso total às manobras de Marcelo.
Rafael concordou com um aceno quase imperceptível, mas o olhar dele a alertou. Marcelo não estava apenas tentando arruinar o noivado; ele estava preparando uma chantagem baseada em documentos falsos. Rafael já havia previsto o movimento e plantado uma contra-armadilha, mas o custo daquela proteção seria alto.
— Amanhã, no leilão, você estará ao meu lado — disse ele, a voz voltando ao tom de comando. — E, Helena? Não olhe para trás quando as perguntas começarem.
Ela assentiu, sentindo o peso do acordo. O noivado era uma farsa, mas o risco, agora, era real demais para ser ignorado.