Efeito Espelho
O silêncio dentro do carro blindado de Rafael tinha a densidade de chumbo. Helena mantinha a bolsa rígida sobre o colo, sentindo o relevo do pendrive — a prova da fraude de Rafael — como uma brasa contra sua pele. Cada quilômetro percorrido pelas ruas de São Paulo a afastava da segurança da fachada de noiva e a empurrava para o centro de uma teia onde ela era, simultaneamente, a vítima e a cúmplice. Rafael não desviava o olhar de seu tablet, mas a tensão em seus ombros era um aviso. Ele sabia que o escritório de Marcelo fora violado. Ele sabia que algo faltava.
— Você está muito quieta, Helena — ele comentou, a voz desprovida de calor, mas carregada de uma autoridade que exigia resposta. — Geralmente, você já teria tentado justificar sua presença no meu evento de hoje com algum comentário sobre a decoração.
Helena forçou um sorriso, sentindo os músculos do rosto pesarem. A humilhação de descobrir que Rafael fora o arquiteto da falência de seu pai ainda ardia, mas ela a envolvera em uma camada de gelo.
— Estou apenas pensando no que vestir para a entrevista — mentiu ela, a voz firme. — A imprensa não aceita nada menos que a perfeição de um casal feliz.
Rafael fechou o tablet com um estalo seco. Ele se inclinou na direção dela, invadindo seu espaço pessoal. O perfume amadeirado era uma marca de poder que a sufocava. Ele tocou a mão dela, não por afeto, mas para testar se ela tremia. Ela não tremeu.
— Lembre-se, Helena: a mentira só é um problema se você esquecer os detalhes — ele sussurrou, antes de se afastar.
No estúdio fotográfico, a atmosfera era de uma vitrine de luxo. Sob as luzes frias, Helena ajustou o colar de diamantes, sentindo o metal como uma algema. Rafael mantinha a postura impecável, mas seus olhos, fixos nela, carregavam uma precisão cirúrgica.
— Mais perto, Helena. O público quer ver a devoção que os jornais insistem em questionar — ele murmurou, enquanto uma mão firme repousava na curva de sua cintura.
Eles se colaram sob o clarão dos flashes. Quando a jornalista, com um sorriso plastificado, perguntou sobre o primeiro encontro, Rafael não hesitou. Ele inventou uma história sobre uma exposição de arte em Milão, um detalhe tão específico e falso que Helena quase se perdeu. Ele descreveu o vestido que ela usava, o vinho que beberam, a chuva que caía. Helena sentiu um calafrio: ele a observava muito antes do contrato. Aquele interesse não era apenas corporativo; era uma obsessão que ela mal conseguia nomear.
Nos bastidores, o ar rarefeito foi cortado pela chegada de Beatriz Viana. A sogra não olhou para os fotógrafos; seus olhos, frios como lâminas de quartzo, fixaram-se em Helena.
— O ensaio é impecável, quase convincente — Beatriz começou, deixando a bolsa de grife sobre a penteadeira. — Mas o leilão dos bens da sua família vence amanhã. Rafael comprou a dívida como quem compra um imóvel em ruínas para demolir. Você realmente acredita que ele a protege por afeto, ou você é apenas o verniz para a sua fusão?
Helena sentiu o sangue gelar, mas usou a própria frieza de Rafael como escudo.
— Rafael não tolera falhas, Beatriz. E ele sabe que o valor de uma aliança supera o de um terreno — respondeu ela, mantendo a voz firme apesar do pânico. Beatriz estreitou os olhos, surpresa pela audácia, e retirou-se, mas Helena sabia que o tempo estava acabando.
Ao saírem do estúdio, a crise explodiu. O burburinho dos paparazzi aumentou, misturando-se aos cliques frenéticos dos celulares. Rafael deslizou o dedo pela tela de seu smartphone, a expressão impassível até que seus olhos cravaram-se nos dela. Ele girou o aparelho. Uma postagem viral exibia a foto do casal com uma legenda ácida que expunha a mentira contada minutos antes: na data da suposta exposição em Milão, Helena estava, na verdade, assinando os papéis de seu divórcio em um cartório na zona sul de São Paulo.
O chão pareceu ceder. O leilão de amanhã não era mais o único risco; sua credibilidade estava em frangalhos. Rafael não se enfureceu. Ele se aproximou, sussurrando contra o ouvido dela, a voz carregada de uma promessa perigosa:
— Você vai pagar caro por essa falha, Helena. E o preço será exatamente o que eu decidir que você vale.