Cláusulas de Risco
O escritório de Rafael Viana, no trigésimo andar da Faria Lima, não era um local de trabalho; era um santuário de poder onde o ar parecia rarefeito, saturado pelo cheiro de couro tratado e a frieza de decisões que custavam milhões. Helena observava a silhueta da cidade através do vidro temperado, consciente de que, lá embaixo, o mundo real se preparava para o leilão dos bens de sua família — um evento marcado para a manhã seguinte, desenhado por Marcelo para garantir sua ruína total.
Rafael caminhava atrás dela, seus passos silenciosos sobre o carpete de fibra natural. Ele não precisava de palavras para ditar o ritmo daquela negociação. Sobre a mesa de mogno maciço, o contrato de noivado parecia uma sentença de morte disfarçada de tábua de salvação. Helena sentiu o nó na garganta enquanto voltava-se para ele.
— O valor da rescisão é proibitivo, Rafael. Você não está me oferecendo um noivado, está comprando uma executiva por um preço vil — disse ela, mantendo a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas sob a mesa.
Rafael parou, o cinismo em seu olhar contido, quase clínico. Ele não recorria à força bruta; preferia a asfixia burocrática.
— Estou oferecendo a única coisa que Marcelo não pode tocar: minha proteção corporativa — respondeu ele, aproximando-se o suficiente para que Helena sentisse o perfume amadeirado que emanava de sua pele. — Se você não assinar, os ativos do seu pai serão liquidados amanhã. Marcelo garantiu que o preço de reserva seja baixo o suficiente para que ele arremate tudo por uma fração do valor real. Ele quer humilhar você, retirando até o teto sobre sua cabeça.
Helena sentiu o peso da armadilha. Ao folhear as cláusulas, seus dedos pararam em uma seção que Marcelo, em sua sanha destrutiva, nunca deveria ver. Era o documento de falência do seu pai, agora sob a custódia direta de Rafael. A náusea que sentiu foi instantânea.
— Você sabia — ela murmurou, encarando-o. — Sabia que Marcelo estava chantageando os sócios da sua empresa para forçar a venda dos meus bens. Você não me tirou daquela gala por piedade. Você me trouxe para dentro do seu jogo para garantir que o que é meu ficasse ao alcance da sua mão.
Rafael não negou. Ele inclinou-se, invadindo seu espaço pessoal, seus olhos escuros fixos nos dela com uma intensidade que quase a desarmou. — O leilão foi suspenso, Helena. Mas a proteção tem um custo. Você não é apenas uma noiva; você é a peça chave para uma fusão que definirá o mercado. Enquanto você estiver sob meu nome, ninguém — nem mesmo Marcelo — ousará tocar no que lhe resta.
Ele foi interrompido por um toque em seu celular e, com um olhar que ordenava paciência, afastou-se para a varanda. Helena, sozinha no escritório, mergulhou nas páginas finais do contrato. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som de sua respiração acelerada. Seus olhos varreram as linhas técnicas até que a Cláusula 14.3 saltou à vista. Não era apenas uma dívida; era a escritura da mansão de sua infância, a última relíquia de seu pai, agora sob o controle direto de Rafael. Ele não a salvara do leilão; ele o comprara.
A porta de mogno abriu-se sem aviso. O perfume de orquídeas e o som de saltos finos no piso de mármore anunciaram a chegada de Beatriz Viana. Helena sentiu o peso do contrato sob seus dedos, uma âncora que a prendia ao abismo.
— Rafael, querido, soube que a imprensa está chamando vocês de 'o casal mais improvável de São Paulo' — a voz de Beatriz era uma lâmina polida, desprovida de qualquer calor. Ela parou atrás de Helena, seus olhos gélidos varrendo o traje impecável da nora. — Helena, imagino que estar no centro das atenções seja uma mudança radical para alguém que, até semana passada, era apenas a ex-esposa esquecida de Marcelo.
Rafael surgiu das sombras do canto do escritório, sua presença física estancando a humilhação que ameaçava subir pelo pescoço de Helena. Ele não se desculpou pela invasão da mãe. Caminhou até Helena e colocou a mão sobre o ombro dela, um toque que, embora pesado e possessivo, serviu como uma barreira física contra o escrutínio de Beatriz.
— O passado é uma história que já foi editada, mãe — disse Rafael, com uma frieza que fez Helena estremecer. Ele olhou para Helena, e por um segundo, a máscara do magnata falhou, revelando uma curiosidade genuína. — Mas diga, Helena, o que você acha da nossa união? Estamos prontos para o próximo passo?
O silêncio que se seguiu foi preenchido pela pergunta de Beatriz, cujos olhos perfuravam Helena: — Rafael sempre teve um gosto peculiar por projetos difíceis. Me diga, Helena, o que exatamente ele prometeu que você não pudesse conseguir sozinha?