Olimpíadas do Campo de Provas
O zumbido metálico no crânio de Kael era uma serra elétrica devorando seus nervos. Ele despertou arquejante sobre o piso frio do hangar, o gosto de cobre impregnando a boca. A fusão neural com o protótipo não apenas aumentara seu tempo de reação; estava carbonizando suas sinapses em nome de uma performance proibida.
— Você está se autodestruindo, moleque — a voz de Mestre Aris soou como metal rangendo. Ele apontou para o monitor: o gráfico de integridade biológica de Kael despencava. — O módulo drena sua energia vital como um parasita. Se não reduzir a carga, o torneio será sua autópsia.
Kael ignorou o tremor nas mãos e acessou o código do núcleo. "Reduzir não é uma opção", pensou, os dedos dançando sobre o holograma. Ele reconfigurou o fluxo para um modo de descarga total. O risco era a falência múltipla de órgãos, mas o ganho de velocidade seria absoluto. Passos pesados ecoaram na rampa. A equipe de elite da facção de Lívia surgiu, sorrisos predatórios visíveis. Kael forçou a interface para baixo da pele e colou uma máscara de tédio no rosto, escondendo o sangue que escorria pelo seu nariz. A caçada mal começara.
O cronômetro no cockpit do V-7 marcava 21 horas e 48 minutos para o duelo de vida ou morte. O silêncio no Setor de Terreno Acidentado era interrompido apenas pelo estalo metálico do chassi, que rangia sob a pressão das placas de blindagem de alta densidade. À sua frente, o percurso de obstáculos era uma armadilha desenhada para triturar máquinas de baixo custo. Mechs de elite à sua esquerda vacilaram quando as plataformas de detritos cederam sob o peso calculado. O sistema de navegação de Kael, alimentado pelo log corrompido de seu pai, projetou trajetórias de salto que desafiavam a física da arena.
— Kael, não force o sincronismo — a voz de Aris soou, cortante, pelo rádio. — Se o módulo fundir com a sua rede neural agora, a integridade da sua massa cinzenta será o próximo combustível.
Kael ignorou o aviso. Ele viu um piloto novato, um garoto de rank inferior tentando desesperadamente estabilizar seu frame, ser cercado por dois Mechs controlados pela elite. Kael girou o V-7, ignorando a dor aguda que subiu pela espinha. Ele utilizou o impulso do módulo para uma manobra de desvio impossível, colidindo com um dos agressores e forçando-os a recuar. O novato sobreviveu, e Kael ganhou um aliado inesperado na poeira da arena. Ele cruzou a linha de chegada, mas o V-7 operava com apenas 40% de eficiência, com o módulo emitindo um brilho azulado que atraía a atenção de todos os olhares técnicos nas arquibancadas.
Na Sala de Diagnóstico, o cheiro de ozônio era sufocante. Kael viu o alerta vermelho: Falha no Ciclo de Refrigeração - Limitador Ativo.
— Eles não querem apenas me derrotar, Aris. Eles querem que o V-7 exploda no meio da pista — Kael sibilou.
Aris cerrou os dentes. — É a facção da Lívia. Injetaram um limitador de fluxo. Se você acelerar além de sessenta por cento na final, a pressão vai estourar o núcleo.
Kael não hesitou. Ele não removeria a trava; ele a inverteria. Transformaria a armadilha em um sistema de sobrecarga controlada. O risco de fusão neural permanente era real, mas a sobrevivência no Campo de Provas exigia que ele fosse mais perigoso que a própria sabotagem.
Na final, o ar na Arena Principal tinha gosto de metal queimado. Kael sentiu o primeiro espasmo na nuca. O campeão da Academia, Valerius, avançou com uma lança de plasma. Kael não viu apenas o golpe; ele viu a microvibração no pistão do oponente e o atraso de milissegundos na resposta do escudo inimigo. A dor da fusão era uma lâmina atravessando seu crânio, mas a clareza era absoluta. O módulo começou a fundir-se com a interface neural de Kael. A dor era intensa, mas os dados de combate fluíam com uma clareza sobre-humana, preparando o terreno para o golpe final.