Sucata, Dívida e o Teste de Recall
O Hangar 42 cheirava a ozônio ionizado e óleo de baixa qualidade, um perfume de falência que Kael conhecia bem. Dentro do cockpit do V-7, uma carcaça de metal que a Academia chamava de "unidade de treinamento" e ele chamava de "túmulo", os indicadores de diagnóstico piscavam em um amarelo febril. Ele tinha exatamente oito minutos e quarenta segundos antes que o sistema central da Academia declarasse sua unidade como sucata irrecuperável.
— Vamos, sua lata velha — sibilou Kael, os dedos calejados dançando sobre o console tátil. Ele forçou uma recalibração manual dos giroscópios, ignorando o protesto metálico que vibrava através da estrutura.
A dívida herdada de seu pai era uma âncora invisível que o puxava para o fundo. Naquele sistema, a glória era combustível, mas a dívida era o peso que impedia o voo. Se o V-7 não passasse no teste de recall, o confisco seria automático. Sem o Mech, ele não era um aspirante; era apenas mais um endividado prestes a ser descartado para as minas de extração.
Uma sombra projetou-se sobre a plataforma de observação. Lívia, impecável em seu uniforme cinza-chumbo, observava o caos com um desdém clínico. Ela não precisava tocar no console; a facção de sua linhagem controlava a manutenção da Academia, e o motor de Kael já havia sido isolado por um bloqueio de software.
— O diagnóstico está travado em 88%, Kael — a voz dela soou amplificada pelos alto-falantes, fria e desprovida de qualquer empatia. — A falha é estrutural. Não adianta prolongar o inevitável. Sua licença de piloto expira assim que o cronômetro zerar.
Kael ignorou o comentário, mas o aperto em seu peito era real. Ele sabia que não era um erro técnico, mas uma manobra política. Lívia queria o espaço do hangar para seus protegidos. O desespero era uma âncora, mas o ódio pela humilhação de ser tratado como lixo era o que o mantinha de pé. Ele deslizou para baixo do painel, acessando o compartimento oculto que Mestre Aris lhe confiara, longe dos olhos dos sensores de Lívia.
— Aris, se isso explodir, garanta que eles não encontrem o rastro do módulo — Kael murmurou, as mãos trêmulas enquanto acessava o núcleo de energia azul pulsante.
— Se explodir, você não estará vivo para se preocupar com o rastro, garoto — respondeu Mestre Aris, a voz rouca, quase inaudível sobre o zumbido estático dos outros frames. — Encaixe no slot secundário. Não force o sincronismo. Se o sistema detectar a assinatura não autorizada, você será deletado antes mesmo de ligar o motor.
Kael não hesitou. Ele encaixou o módulo. O efeito foi imediato e violento: uma luz azul fria vazou pelas frestas da carenagem, iluminando a penumbra do hangar com uma intensidade quase dolorosa. O motor, antes moribundo, rugiu com uma frequência gutural que fez os dentes de Kael vibrarem. O V-7 não estava apenas consertado; estava sobrecarregado por uma energia que não pertencia a nenhum catálogo da Academia.
O painel de controle, no entanto, reagiu instantaneamente ao fluxo de energia proibida. As luzes de aviso mudaram do amarelo para um vermelho agressivo. O sistema de segurança da Academia havia detectado a anomalia e estava enviando um sinal de bloqueio total.
— Kael, eles estão vindo! — gritou Aris, mas o som foi abafado pelo guincho dos servomotores do Mech se ajustando à nova carga.
Kael sentiu cada vibração da máquina como se fossem espasmos em seu próprio corpo. O sistema de controle da Academia piscou em vermelho: "Falha Crítica Detectada". Ele sabia que, se a equipe de manutenção chegasse antes que ele pudesse estabilizar a saída de energia, seria o fim. O módulo proibido pulsava com uma luz azul fria sob a carcaça, e Mestre Aris, com o olhar fixo na leitura de energia, sussurrou com um peso que gelou o sangue de Kael:
— Isso não é apenas uma peça, é uma sentença de morte.