The First Lead
A campainha rasgou o ar duas vezes, seca e impaciente, sobrepondo-se ao tamborilar incessante da chuva contra a janela. Rafael deixou o celular cair na mesa de centro e abriu a porta do apartamento sem acender a luz do corredor. O interfone nem chegou a tocar — alguém subira direto.
Um motoboy coberto por capa de chuva preta brilhante estendeu um envelope pardo pequeno, sem selo, sem remetente. Apenas o nome escrito à mão na frente: Rafael Almeida. A caligrafia era dela. O R aberto como garra, o A tombando para a direita — Clara.
— Assina aqui — disse o rapaz, já empurrando o tablet.
Rafael rabiscou o nome com dedos frios. O motoboy desceu as escadas correndo antes que ele pudesse abrir a boca. O elevador rangeu duas vezes lá embaixo. Depois, só a chuva.
Trancou a porta, passou a corrente e só então rasgou o envelope sob a luz fraca da cozinha. Uma única folha amarelada, rasgada na borda esquerda. No cabeçalho, em tinta preta desbotada: Livro-Caixa nº 47 – Controle Interno Almeida & Filhos. Abaixo, lançamentos de doze anos atrás. Transferências redondas demais, valores que nunca apareceram em declaração nenhuma. No rodapé, a assinatura da mãe — a mesma de todos os papéis oficiais antes do acidente. E na margem, letra apertada e urgente de Clara:
“Ainda vivo. Não confie em ninguém da casa. Seis dias. Procure o 13.”
Seis dias. Exatamente o prazo que a polícia dera para arquivar o caso como desaparecimento voluntário. Seis dias desde que Clara sumira sem deixar rastro: sem mala, sem mensagem, sem barulho. A família já falava em “esgotamento”, em “fuga da pressão da herança”. Rafael nunca engoliu. Clara não sumia quieta. E agora aquela página provava que ele estava certo — e que alguém queria que ele soubesse.
Dobrou o papel com cuidado, guardou no bolso interno da jaqueta e pegou as chaves do carro. A chuva castigava São Paulo como se quisesse apagar a cidade inteira.
O sobrado da família no centro antigo parecia mais torto do que da última vez, como se as infiltrações finalmente tivessem vencido a estrutura. Rafael subiu os degraus gastos da entrada lateral, bateu duas vezes e entrou sem esperar resposta.
“Tia Lúcia?”
A voz dela veio da sala, seca:
“Aqui.”
Ele atravessou o corre
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