The First Test
— Isso é lixo, Kael. Nem para cascalho de fundição serve.
O Capataz da Seita do Horizonte de Prata chutou a sacola de couro, espalhando fragmentos de minério azulado pelo chão batido do entreposto. O som do metal chocando-se contra a pedra foi abafado pelas risadas dos outros coletores. Kael sentiu o estômago revirar. Aqueles minérios custaram três dias de exploração nas bordas instáveis da Torre, arriscando a exposição à radiação residual. Sem os créditos daquela venda, seu aluguel no Setor de Baixo seria cancelado antes do pôr do sol.
— É minério de alta pureza do 2º nível — retrucou Kael, a voz falhando sob o olhar gélido do guarda. Ele tentou manter a postura, mas a humilhação era uma camada de poeira que ele nunca conseguia limpar.
— É entulho — retrucou o Capataz, sacando o bastão elétrico. O zumbido da arma fez a multidão recuar. — E você está bloqueando a fila dos discípulos. Suma daqui antes que eu use seu crânio para nivelar o piso.
Kael abriu a boca para implorar, mas o ar estalou. Uma interface translúcida, nítida e intrusiva, surgiu em sua visão, sobrepondo-se à realidade cinzenta do mercado:
[ALERTA: Rota Proibida do 1º Andar detectada.] [Tempo para selamento: 00:15:00] [Risco: Morte por exclusão de rede.]
Ele não pensou. Virou as costas e disparou. O grito do Capataz — "Pare aí, verme!" — reverberou pelo pátio, acompanhado pelo estalo de energia do bastão, mas Kael já era um borrão entre as barracas. Seus pulmões queimavam, o ar gélido do setor externo rasgando sua garganta. Ele não corria por dignidade; corria porque o Sistema, a anomalia que ele carregava, não lhe dava outra escolha.
O ar nos Corredores de Manutenção da Torre era denso, carregado com o cheiro metálico de ozônio. À sua frente, o portão principal para o Segundo Andar emitia um zumbido grave, vibrando com uma energia que parecia zombar da sua fraqueza. O cronômetro em sua visão periférica não perdoava: 00:08:42.
Kael não tinha o talento inato para atravessar o portal principal. A Seita do Horizonte de Prata reservava aquele acesso apenas para os discípulos graduados, cujas linhagens eram puras o suficiente para não serem estraçalhadas pela pressão gravitacional. Para Kael, aquele portão era uma sentença de morte.
— Tolo — a voz de Vane, o Líder da Seita, ecoou em sua memória, carregada com o desdém de quem olha para um inseto. — Você não é nada além de um erro de cálculo, Kael. O lixo não sobe.
Kael desviou o olhar do portão principal. Seus dedos, calejados e trêmulos, tatearam a parede de pedra bruta atrás de um duto de ventilação entupido. O Sistema brilhou em um azul pálido, destacando uma falha na estrutura da Torre: um fragmento de memória, um padrão de runas que ninguém mais via. Enquanto os outros coletores se acotovelavam na entrada principal, perdendo tempo com rituais de cultivo obsoletos, Kael pressionou a palma da mão contra o duto.
A parede cedeu com um som de sucção hidráulica. Ele não entrou; ele foi engolido pela pressão. A gravidade no duto era esmagadora, dobrando seus joelhos, mas o Sistema reagiu instantaneamente, drenando a energia do fragmento de memória para reforçar sua estrutura óssea. Kael sentiu seus músculos arderem, um ganho de força bruto e imediato que mudava a própria mecânica de seu corpo. Ele não estava apenas subindo; estava hackeando o andar.
O ar comprimido sibilou, expelindo Kael para o asfalto frio um segundo antes que o portão colossal se selasse com um estrondo sísmico. Ele emergiu da Torre com uma aura diferente, uma densidade cortante que não deveria pertencer a um "coletor" de nível ínfimo.
O silêncio no pátio foi absoluto. Vane, o Líder da Seita, descruzou os braços e desceu os degraus de mármore com uma elegância predatória. Seus olhos estreitaram-se, rastreando a assinatura energética de Kael — uma frequência errática, impossível para um cultivo padrão.
— Você é um lixo, Kael. Coletores não absorvem núcleos de elite — Vane sibilou, parando a centímetros dele. A pressão de sua aura de domínio esmagou o solo ao redor. — Como você sobreviveu? E, mais importante, o que você roubou lá dentro?
Kael sentiu o peso do olhar de Vane: uma sentença de morte. No canto de sua visão, o cronômetro do sistema piscou em vermelho sangue: 00:05:00. O jogo mudou. Ele não recuou. O ar ao seu redor vibrava com uma frequência errática, um subproduto da absorção proibida que fervia em suas veias. O próximo andar já se abria em sua interface, prometendo mais do que ele poderia carregar. Se ele não cruzasse o portão novamente, a seita o descartaria como lixo, mas agora, ele tinha a força para lutar.