Aliança Inesperada
O suor frio que escorria pela espinha de Kaelen não era apenas pelo esforço físico, mas pelo peso da revelação que carregava no chip de dados. Vinte e quatro horas. Esse era o intervalo de tempo que o separava da auditoria da Seita Central, um prazo tão curto que soava como o tique-taque de uma bomba-relógio. Dentro de seu peito, o núcleo modificado pulsava com uma frequência irregular, cada batida um lembrete físico de que ele estava drenando a própria vitalidade para manter a sincronia de 44% com o Mark-IV.
No Setor de Dívida, onde o ar tinha gosto de ozônio e desespero, Kaelen tentou estabilizar a respiração. Ele precisava esconder a dor, mascará-la sob a fachada de um cultivador que simplesmente se esforçava demais. Se a Mestra Vala percebesse a instabilidade em sua assinatura de energia, ela não apenas o expulsaria; ela o desmantelaria como um ativo defeituoso. Jiro surgiu das sombras entre os mechs, sua presença impecável contrastando com o ambiente sujo. O rival não perdeu tempo com sutilezas, bloqueando o caminho de Kaelen com um desprezo que, desta vez, continha um fio de cautela técnica.
— Você está se autodestruindo, Kaelen — murmurou Jiro, os olhos fixos na assinatura de energia instável do protagonista. — O Observador não está investigando apenas sua dívida. Ele está mapeando a assinatura da sua técnica proibida. Se você entrar naquela arena com esse núcleo instável, você não vai apenas perder; vai ser desintegrado.
Kaelen sentiu a pontada familiar de dor atrás dos olhos. — Eu tenho os dados que a Seita não quer que ninguém veja — Kaelen rebateu, mantendo a voz firme. — Se eu cair, a informação sobre a drenagem de vitalidade da Zona de Exclusão morre comigo. Você quer que a sua linhagem continue sendo drenada por um sistema que nos trata como gado?
O silêncio de Jiro foi a resposta mais perigosa. O rival não queria apenas dinheiro; ele queria a garantia de que Kaelen não cairia antes de expor a corrupção que ameaçava o prestígio de sua própria família. Com um movimento seco, Jiro estendeu um cristal de dados codificado.
— Esta é a chave de acesso da arena — disse Jiro, os olhos estreitados. — Mas eu quero cinquenta por cento de qualquer recurso que você extrair daquela incursão. Se você falhar, seu mech é meu e você desaparece do sistema.
Kaelen aceitou a chave. O peso do cristal era a promessa de um risco compartilhado. Com o acesso garantido, ele se infiltrou na câmara de controle da arena. Lá, o choque foi absoluto: a Seita não apenas drenava energia, mas coletava dados genéticos de cada linhagem para otimizar a extração de éter-créditos a longo prazo. Kaelen começou a injetar comandos de sobrecarga nos sensores de fluxo, mascarando sua assinatura proibida no ruído branco do sistema. O objetivo era claro: transformar a auditoria em uma vitrine de falhas catastróficas da Seita.
No entanto, ao sair da câmara, o ar tornou-se denso. A porta sibilou ao se fechar, prendendo-o sob a luz fria da câmara de segurança. Mestra Vala surgiu das sombras, o perfume de éter refinado anunciando sua presença. Ela ativou o campo de supressão, forçando Kaelen a cair de joelhos enquanto sua sincronia de 44% lutava contra a trava de contenção.
— O jogo de alianças é um desperdício de energia, Kaelen — Vala disse, sua voz desprovida de emoção. — Você acha que o chip que roubou lhe dá o controle, mas você é apenas um componente que ainda não foi calibrado. A auditoria não é sobre desempenho, é sobre colheita. E você, com sua técnica proibida, acabou de se tornar o nosso protótipo mais valioso.