A Prova de Fogo
O ar no Setor 7 não era apenas rarefeito; era carregado com o cheiro metálico de ozônio e o suor frio de quem sabe que o próximo erro custará a vida. Kaelen sentiu o tranco violento quando a gravidade artificial da arena oscilou, um pulso de 2G que fez o chassi do seu Mark-IV gemer. O estabilizador de pulso, soldado às pressas no núcleo, vibrava contra sua espinha como uma agulha em brasa. Sincronia: 44%. O preço era uma drenagem constante de sua própria essência vital, uma hemorragia invisível que deixava sua visão turva.
— Estabilize o núcleo, Kaelen. A falência é um destino misericordioso comparado ao que a Seita reserva para ineficientes — a voz de Mestra Vala ecoou pelos alto-falantes, desprovida de qualquer humanidade. Ela observava da tribuna, uma estátua de frieza, monitorando a assinatura de energia do mech dele como um contador de Geiger em uma zona de radiação.
À frente, três oponentes da Academia avançavam em formação de pinça. Eram cães de caça da elite, equipados com peças de série que brilhavam com a pureza de quem nunca precisou roubar energia de um leilão de lixo. Kaelen cerrou os dentes. A auditoria de ranking estava a 48 horas de distância, e sua dívida de 4.200 Éter-Créditos era um tique-taque constante em sua mente. Se ele caísse aqui, o mech seria confiscado e ele seria liquidado antes do pôr do sol.
Um projétil cinético atingiu seu ombro esquerdo, arrancando uma placa de blindagem. Kaelen não recuou. Ele forçou o estabilizador a sobrecarregar, canalizando a energia proibida para o propulsor lateral. O Mark-IV saltou, ignorando a inércia, e colidiu com o flanco do primeiro oponente. O impacto foi brutal; a estrutura do inimigo cedeu com um guincho metálico. Kaelen desferiu um golpe de pulso direto no núcleo central, desativando-o em um clarão de faíscas.
— Se você cair, eu sangro junto — a voz de Jiro soou pelo canal privado, carregada de um desprezo que mal escondia o pânico. Ele estava ao lado de Kaelen, seu próprio mech exibindo falhas de sincronia que Kaelen reconhecia. — Use a técnica proibida. Limpe o caminho ou ambos seremos descartados.
Kaelen observou as articulações do mech de Jiro. A sabotagem era sutil, mas visível. Jiro não queria apenas vencer; ele queria que Kaelen se expusesse diante dos olhos da Seita Central para que o próprio Kaelen fosse o bode expiatório da investigação.
— Você está sendo monitorado, Jiro — Kaelen respondeu, a voz calma apesar da dor lancinante. — Se eu usar a técnica, você entrega a prova que eles precisam para me desmantelar. E você? Acha que eles vão deixar um sobrevivente que conhece seus segredos?
Kaelen impulsionou o Mark-IV, forçando Jiro a cobri-lo. Em uma manobra arriscada, ele forçou o estabilizador a drenar a energia residual da arena, criando um pulso eletromagnético que fritou os sistemas de suporte de vida dos dois oponentes restantes. A plateia silenciou. Foi uma brutalidade eficiente, um triunfo da engenharia de mercado sobre a linhagem.
Ao descer da cabine, Kaelen sentiu o gosto de cobre na garganta. O Observador da Seita Central desceu da tribuna, ignorando o mech danificado para fixar os olhos em Kaelen.
— A eficiência de pulso que você demonstrou... não condiz com as especificações da Academia — o homem disse, a voz fria como o vácuo. — Onde você obteve a modulação da linhagem proibida para forçar a sincronia em 44%?
Kaelen limpou o sangue do canto da boca. Mestra Vala estava a poucos passos, observando como um predador.
— Eu não sigo manuais de linhagem, Observador — Kaelen respondeu, firme. — Eu sigo a escassez. Se a Academia quer respostas, talvez devesse olhar para os contratos que assinou com minha família há séculos.
O observador parou, o rosto inexpressivo antes de se inclinar. — Você menciona contratos, rapaz, mas esquece que, na Seita, tudo o que é assinado pode ser reescrito pelo sangue de quem não tem mais valor. Verifique seu arquivo de linhagem na próxima auditoria, se sobreviver até lá.
O homem se retirou. Kaelen ficou parado, o peso daquelas palavras ecoando mais fundo que qualquer dano físico. O contrato que ele acreditava ser apenas uma dívida financeira era, na verdade, a chave para sua condenação — e talvez, a única forma de escapar dela.