A Última Contagem
O ar no telhado do armazém industrial não era apenas quente; era o hálito da ruína da linhagem Lane. A fuligem grudava na pele de Elias, um lembrete físico de que o tempo de diplomacia havia se esgotado. O tablet em suas mãos brilhava com a urgência de uma sentença: 99% de progresso. Faltava um clique, um último pacote de metadados para que o Livro Negro fosse replicado em servidores globais, tornando a corrupção da cidade-santuário um segredo de polichinelo.
— Desista, Elias. Você não é um mártir, é apenas um restaurador que esqueceu o seu lugar — a voz de Valério, o braço direito do Patriarca, cortou o estalo das chamas. Três seguranças da Patrulha Lane emergiram das sombras, as armas em punho, fechando o semicírculo. Abaixo, as luzes da cidade pareciam indiferentes, mas Elias sabia a verdade: cada segundo de atraso significava que a família Lane estava comprando o silêncio dos provedores de rede. O prazo de 47 horas até o leilão era uma ficção; para eles, o fim era agora.
Elias olhou para o dispositivo. O cursor tremia. Ele não era um peão, mas Beatriz o transformara em um. Ela não queria apenas justiça; ela queria o trono, e Elias era o instrumento de sua revolução sangrenta. Com um movimento brusco, ele saltou para o parapeito do prédio adjacente, sentindo o impacto do concreto contra suas costelas enquanto o ar perdia o contato com o servidor remoto. Ele perdera a conexão, mas ganhara segundos.
Ele buscou refúgio na cripta familiar, o único lugar onde o prestígio dos Lane proibia a entrada da polícia comum. O ar lá dentro tinha o gosto metálico de séculos de negligência. Elias tropeçou, o peso do Livro Negro original contra o peito parecendo uma sentença. Seus pulmões ardiam. Atrás dele, o silêncio da cidade era o pior dos sinais: a Patrulha não estava apenas atrás dele, eles estavam fechando o cerco.
— Eu sabia que você viria aqui, Elias. É um restaurador de memórias, afinal — a voz ecoou, fria. O Inspetor surgiu da penumbra, a arma em punho. Não era a postura de quem buscava um criminoso, mas a de quem executava uma tarefa doméstica. O distintivo em seu peito brilhava sob a luz fraca de uma lanterna, um símbolo de autoridade que Elias ainda acreditara ser seu último aliado.
— Você me prometeu que a lei importava — Elias arfou, mantendo a mão firme sobre o tablet. O progresso marcava 99% novamente. O Inspetor deu um passo à frente, o rosto uma máscara de indiferença calculada.
— A lei é o que os Lane decidem que ela seja. Você, Elias, foi apenas a ferramenta para expor os sócios que o Patriarca queria descartar. Beatriz não é uma vítima, ela é a arquiteta. E você? Você é apenas o dano colateral necessário.
Elias sentiu o peso do metal em seu bolso. Ele olhou para o monitor lateral, onde, escondida nas sombras, uma câmera de vigilância da família transmitia a cena para o escritório do Patriarca. Então, ele viu: um reflexo no vidro da lente. Beatriz. Ela estava lá, observando tudo, manipulando o Inspetor como quem move uma peça em um tabuleiro de xadrez onde o xeque-mate exigia o sacrifício de um peão.
— Você acha que ele vai te poupar se eu entregar? — Elias perguntou, a voz firme, apesar da pulsação em suas têmporas. — Você é apenas o próximo nome na lista de descartáveis, Inspetor.
O policial avançou, o cano da arma pressionando o esterno de Elias. O tablet, preso a uma rede improvisada, atingiu 99.9%. Elias olhou nos olhos do homem que representava tudo o que ele tentara destruir. Ele não precisava mais do Inspetor. Ele precisava apenas do clique. Com um movimento rápido, Elias pressionou o envio. O upload disparou para 100% no exato instante em que o Inspetor engatilhou a arma.