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Chapter 7: Linhas de Sangue e Papel

Elias descobre que Beatriz está chantageando os sócios do pai, revelando-se a predadora do império Lane. Enquanto tenta confirmar a nova localização da herdeira, ele é cercado pela segurança privada da família, tornando-se a distração final no plano de Beatriz.

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Linhas de Sangue e Papel

O café central da cidade-santuário cheirava a grãos torrados e a um medo que se disfarçava de civilidade entre as mesas de mogno. Elias sentou-se na penumbra do canto, sentindo o vazio no bolso onde, até poucas horas atrás, repousava sua identidade legal. Agora, ele era um espectro, um erro de sistema que a Patrulha Lane apagaria sem hesitar. Faltavam quarenta e sete horas para o leilão do Livro Negro, e cada segundo era uma contagem regressiva para sua própria anulação.

À sua frente, Vico, um intermediário de documentos falsos que devia a Elias a manutenção de sua própria liberdade, evitava o contato visual. Vico tremia. A notícia da queda de Elias já percorrera os esgotos da cidade.

— Não posso, Elias — sussurrou Vico, a voz mal audível sobre o tilintar das xícaras. — A Patrulha Lane não está apenas caçando uma herdeira perdida. Eles estão limpando o tabuleiro. Se eu te der uma identidade nova agora, eles queimam minha casa antes do amanhecer.

Elias inclinou-se, ignorando o tremor em suas próprias mãos. O custo de sua sobrevivência era a dignidade, e ele estava pronto para negociar com o que restava.

— Você se esqueceu daquelas notas fiscais que restauramos no ano passado, Vico? Aquelas que provavam que o terreno da sua família não foi comprado, mas roubado pela fundação dos Lane? — Elias manteve a voz baixa, letalmente calma. O pânico de Vico mudou de tom, de medo para terror puro. Elias não precisava de simpatia; precisava de uma saída. Ele saiu do café minutos depois, sem a identidade, mas com a certeza de que Beatriz não estava sendo caçada. Ela estava sendo contida por alguém que temia o que ela sabia.

A chuva em Santa Fé não limpava nada; apenas misturava a fuligem das chaminés industriais com o lodo dos becos. Elias estava encolhido atrás de uma caçamba de ferro enferrujado, nos fundos da biblioteca municipal, com o livro de contabilidade que furtara do Orfanato da Colina. O frio era um detalhe insignificante perto da náusea que sentia ao folhear as páginas manchadas de tinta.

Seus dedos, calejados e sujos, cruzavam as entradas do livro com as anotações fragmentadas de Beatriz. Ele esperava encontrar registros de resgate, uma troca de dinheiro por uma vida. Em vez disso, a realidade saltou das páginas com a precisão de um golpe de faca. As transferências bancárias não eram pagamentos para libertar a herdeira; eram depósitos vultosos feitos por sócios do Patriarca para contas numeradas, sob a rubrica de "Consultoria em Silêncio".

— Ela não está sendo mantida refém — sussurrou Elias para a escuridão do beco. — Ela está administrando o caixa.

Beatriz não era a peça de xadrez sendo movida pelo pai. Ela era quem segurava o tabuleiro, forçando os sócios da família Lane a pagar pelo próprio silêncio. A herdeira perfeita havia se tornado uma predadora, e o Livro Negro não era um cofre de segredos, mas uma arma de chantagem que ela estava prestes a disparar contra o império que a criara.

Elias sentiu o peso da compreensão. O asfalto da rua aristocrática vibrava sob suas botas enquanto ele se aproximava da mansão que deduzira ser o próximo ponto de encontro. O endereço, uma fachada colonial onde o silêncio custava milhões, estava cercado. SUVs pretos com vidros fumê formavam uma barricada ininterrupta. Homens da segurança privada dos Lane patrulhavam o perímetro com uma tensão que ia além do dever profissional. Eles não estavam protegendo a casa; estavam contendo uma explosão.

Ele esgueirou-se por um beco lateral, o cheiro de jasmim misturando-se ao odor pungente de borracha queimada. A revelação do orfanato ardia em sua mente: Beatriz não era a vítima que ele tentara resgatar. Ela era o vírus que estava consumindo a família de dentro para fora, e ele, o investigador, tinha sido apenas o peão necessário para levar a prova final até o alvo.

Ao alcançar a grade ornamental, o metal frio contra suas mãos, ele viu uma silhueta na janela do segundo andar. Não era o desespero de uma refém, mas a calma de quem observa o caos que ela mesma orquestrou. De repente, luzes de busca varreram o beco, cegando-o. O som de botas batendo contra o asfalto cercou o quarteirão. O vazamento de informações fora um sucesso, mas a armadilha se fechara sobre ele. Beatriz havia vencido, e Elias percebeu, tarde demais, que ele era a distração final.

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