O Custo da Verdade
O ar no Orfanato da Colina tinha o gosto de desinfetante vencido e segredos mal enterrados. Elias forçou a porta do dormitório dos fundos; o metal cedeu com um gemido metálico que pareceu ecoar por toda a estrutura de concreto. Ele não estava ali para investigar; estava ali para resgatar. Mas o quarto estava vazio. A cama de ferro, onde Beatriz deveria estar, exibia apenas lençóis revirados e uma mancha de sangue fresco, ainda úmida, brilhando sob a luz de sua lanterna como uma assinatura de urgência.
Elias tocou o sangue. Estava morno. Ela estivera ali há menos de dez minutos.
— Droga — ele sibilou, a voz cortando o silêncio como um estalo. O tempo, que ele contava em horas, agora escorria em segundos. Com quarenta e sete horas restantes até o leilão do Livro Negro, a família Lane acabara de extrair seu ativo mais valioso das sombras. Ele não estava apenas perdendo Beatriz; estava perdendo a única prova que poderia destruir o Patriarca.
Um estalo de botas militares no corredor interrompeu seu raciocínio. A Patrulha Lane não estava apenas movendo a herdeira; eles estavam esterilizando o local. Elias recuou para as sombras do armário embutido, mas o feixe de uma lanterna varreu o recinto, fixando-se nele. A porta se abriu com um estrondo.
— Eu sei que você está aí, restaurador — a voz era grossa, saturada pelo cinismo de quem recebia propina da família há décadas. O guarda, com o uniforme impecável que contrastava com a imundície daquele lugar, apontou a arma. — O Patriarca quer a sua cabeça, mas ele quer o documento que você roubou do cartório ainda mais. Entregue-o, ou você sai daqui em um saco.
Elias sentiu o peso do envelope no bolso interno. Era sua identidade legal, o último fio que o ligava à sociedade. Sem ele, ele seria um fantasma, um indigente sem nome. O guarda deu um passo à frente, o cano da arma firme contra o peito de Elias. Ele não tinha escolha. Entregou o envelope, sentindo o vazio da perda imediata.
O guarda guardou o documento com um sorriso de escárnio, mas antes de sair, soltou uma informação que fez o mundo de Elias oscilar:
— Você acha que ela é a vítima? Ela não está fugindo, restaurador. Ela está chantageando cada sócio do pai. Ela não é a presa; ela é quem está derrubando o tabuleiro.
Elias ficou sozinho no dormitório. A revelação mudou a natureza de sua missão. Ele correu para o rádio amador escondido no Santuário de São Judas Tadeu. A voz do inspetor surgiu, abafada por estática:
— Saia da frequência, Elias. Você é um fantasma agora. A auditoria de cinco dias é uma liquidação de ativos criminosos, e Beatriz é o gatilho. Você está correndo para salvar alguém que está prestes a queimar a cidade inteira.
Elias olhou para o fragmento de papel que encontrara sob o estrado da cama: um código de transferência bancária. Ele não era um salvador; era um espectador de uma guerra civil. Com a identidade legal perdida e o tempo reduzido, ele partiu para o endereço no recibo. Ao encontrar Beatriz, ele não encontraria uma donzela, mas a arquiteta de uma ruína que ele mesmo ajudara a desenhar.