Novel

Chapter 4: Rastros de Cinzas

Elias sacrifica sua identidade legal para obter de uma funcionária do cartório a localização do arquivo de Beatriz: o Orfanato da Colina, local de seu próprio passado traumático e centro da lavagem de dinheiro da família Lane.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

Rastros de Cinzas

O ar no Cartório Distrital era uma mistura de mofo e desinfetante barato, um odor que Elias associava a sepulturas burocráticas. O zumbido dos drones de vigilância da fundação Lane vibrava através das paredes de concreto, uma frequência constante que lhe causava náuseas. Ele não tinha mais o sensor; agora, era apenas um homem sem rastro, um erro no sistema que a cidade tentava corrigir.

— O senhor não deveria estar aqui — a funcionária atrás do balcão, uma mulher de meia-idade com a pele marcada por anos de obediência cega, não ergueu os olhos. Ela digitava com uma cadência mecânica. — Seu acesso foi revogado. O sistema marcou seu CPF como inexistente há dez minutos.

Elias sentiu o chão oscilar. A anulação da sua identidade legal não era apenas um bloqueio administrativo; era uma sentença de invisibilidade. Ele não podia sacar dinheiro, não podia usar transporte público, não podia existir.

— Eu preciso da localização do arquivo de Beatriz — ele disse, a voz cortante, ignorando o tremor em suas mãos. — O Patriarca está limpando os registros. Se eu não tiver o documento original, a verdade morre com ela.

Ela parou de digitar. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo tique-taque de um relógio de parede, um lembrete cruel das 48 horas restantes até o leilão do Livro Negro. A mulher olhou para os lados, certificando-se de que as câmeras de segurança não focavam neles, e deslizou um formulário de renúncia de direitos civis sobre o mogno.

— O custo da informação não é dinheiro, Elias. É a sua vida como cidadão. Se eu te der o endereço, você deixa de existir para o Estado. Você será um fantasma, e fantasmas não têm proteção legal quando a fundação decidir que você é um problema.

Elias olhou para o papel. Assinar significava aceitar a caçada. Ele pegou a caneta, sentindo o peso da decisão. Ao assinar, ele não apenas perdia sua vida anterior; ele se tornava um alvo legítimo. Ele assinou com um traço firme, o som da ponta da caneta rasgando o papel soando como um disparo.

— Orfanato da Colina — ela sussurrou, sem olhar para ele. — Eles estão queimando tudo lá. O que não for vendido será cinza até o amanhecer.

Elias não esperou. Ele saiu do cartório, sentindo o peso do vazio em seu bolso. Sem identidade, ele era um espectro. Ele correu pelas ruas, desviando das rotas monitoradas pelos drones, até chegar à periferia industrial. O cheiro de plástico queimado era insuportável. O caminhão de lixo da fundação acabara de descarregar uma carga incandescente em uma lixeira industrial.

Ele se lançou entre as brasas, o calor chamuscando suas roupas e queimando a pele de suas mãos. Entre os restos de documentos, ele encontrou um microdispositivo de polímero. Ao ativá-lo nas sombras de um galpão, a voz de Beatriz ecoou, trêmula, mas firme:

— Elias, se você está ouvindo isso, o Livro Negro não está no cofre. Eles o esconderam no lugar onde tudo começou. O Orfanato da Colina. Eles usam a caridade como fachada para a lavagem de dinheiro, e meu pai... ele nunca vai deixar isso sair.

O áudio cortou. Elias olhou para a colina, onde o orfanato se erguia como uma cicatriz na paisagem da cidade. Era o lugar onde ele crescera, o lugar de seu maior trauma, agora o epicentro da corrupção que ele jurara destruir. Ele tinha 47 horas. Ele não era mais Elias, o restaurador. Ele era a única pessoa que restava para impedir que o passado fosse enterrado para sempre.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced