Novel

Chapter 3: A Armadilha do Relógio

Elias invade o casarão dos Lane para recuperar o Livro Negro, mas descobre que o Patriarca o esperava. O prazo da auditoria é encurtado em 24 horas, e Elias foge sob vigilância, perdendo seu equipamento de contramedidas. Ele busca refúgio no Cartório Distrital, onde descobre que Beatriz está viva, mas o preço para confirmar sua localização é a anulação de sua própria identidade legal.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

A Armadilha do Relógio

O uniforme de manutenção da empresa de climatização pesava nos ombros de Elias como uma mortalha de poliéster barato. O casarão dos Lane exalava um perfume opressor de lírios e cera, uma fragrância que mascarava, para os convidados do baile de caridade, o cheiro metálico de ozônio e segurança de elite que Elias detectava nas sombras. Ele caminhou pelo corredor de serviço com a cabeça baixa, os dedos suados apertando uma maleta de ferramentas que continha o necessário para abrir um cofre de parede, mas pouco para salvar sua própria pele.

Cada passo era um exercício de humilhação calculada. O sistema de segurança da família, atualizado na madrugada anterior, não era apenas óptico; utilizava biometria de marcha. Elias forçava uma claudicação leve, alterando seu padrão de caminhada para confundir o algoritmo que, ele sabia, já o tinha marcado como um intruso. O silêncio no corredor era pontuado pelo som abafado de uma orquestra de câmara vinda do salão principal, onde o destino de Beatriz estava sendo enterrado sob discursos de filantropia e luxo. Ao dobrar a esquina para a ala administrativa, o sensor de movimento piscou em vermelho âmbar. A porta do escritório do Patriarca estava entreaberta — um convite silencioso que gritava armadilha.

O ar dentro da sala não tinha cheiro de livros antigos, mas de ozônio e polimento caro. Elias sentiu o peso do cofre de metal sob suas mãos, o coração batendo um ritmo frenético que parecia zombar do silêncio absoluto. Ele inseriu a combinação que Beatriz lhe confiara em uma nota cifrada. Quando a trava cedeu com um estalo seco, o vazio o atingiu como um soco. Não havia Livro Negro. Apenas um envelope pardo contendo uma única página: uma lista detalhada de seus próprios movimentos nas últimas quarenta e oito horas, incluindo o momento exato em que ele tentara, em vão, falar com o Inspetor.

— Você sempre teve um gosto peculiar por ruínas, Elias — a voz do Patriarca surgiu das sombras atrás da mesa de mogno. Ele estava parado, uma silhueta impecável contra a vidraça que dava vista para o santuário da cidade.

Elias girou, as mãos vazias. — Onde ela está?

O Patriarca caminhou até o centro da sala, ignorando a pergunta. Ele apontou para o relógio de parede, um monstro de engrenagens expostas. Com um clique metálico seco, o ponteiro dos segundos avançou, mas o dos minutos saltou violentamente, cortando vinte e quatro horas do tempo que restava.

— O tempo da sua utilidade expirou no momento em que você atravessou meu portão sem ser anunciado — o velho disse, sua voz um fio de navalha polida. — Beatriz nunca esteve aqui. Ela está onde a memória de garotos como você costuma falhar: no passado, em algum lugar que você insiste em visitar, mas não consegue alcançar. O leilão do Livro Negro foi antecipado. Você tem quarenta e oito horas antes que a história dela seja apagada.

O Patriarca sabia que ele viria. O relógio no escritório acabara de ser adiantado. Elias sentiu o suor frio escorrer pelas costas enquanto a segurança, alertada pelo Patriarca, inundava o corredor. Ele não tinha saída, exceto os jardins.

Correndo pela escuridão, Elias sentiu o peso dos drones que patrulhavam a propriedade. Ele usou um sensor de frequência que ele mesmo consertara para cegar o drone acima dele, mas o custo foi alto: o sensor queimou, deixando-o cego para a vigilância eletrônica restante. Ele saltou o muro dos fundos, caindo sobre o cascalho úmido com o tornozelo latejando.

Horas depois, ele encontrou refúgio no Cartório Distrital, um dos poucos lugares onde a tecnologia da elite ainda não dominava. A mulher atrás do balcão, com mãos manchadas de tinta, não ergueu os olhos. — Estão deletando vidas da base de dados municipal — ela murmurou.

Elias apoiou as mãos na madeira gasta. — Eu vim pelo registro de propriedade de 1998.

A mulher parou o carimbo no ar e finalmente o encarou. — Eu sei quem você é. Beatriz está viva, mas o preço da informação que você busca é a sua existência legal. Você quer ser um fantasma ou quer ser um herói morto?

O relógio corria. O prazo era uma lâmina no pescoço, e a cada segundo, o silêncio ao redor de Beatriz se tornava uma tumba definitiva.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced