A Armadilha do Relógio
O uniforme de manutenção da empresa de climatização pesava nos ombros de Elias como uma mortalha de poliéster barato. O casarão dos Lane exalava um perfume opressor de lírios e cera, uma fragrância que mascarava, para os convidados do baile de caridade, o cheiro metálico de ozônio e segurança de elite que Elias detectava nas sombras. Ele caminhou pelo corredor de serviço com a cabeça baixa, os dedos suados apertando uma maleta de ferramentas que continha o necessário para abrir um cofre de parede, mas pouco para salvar sua própria pele.
Cada passo era um exercício de humilhação calculada. O sistema de segurança da família, atualizado na madrugada anterior, não era apenas óptico; utilizava biometria de marcha. Elias forçava uma claudicação leve, alterando seu padrão de caminhada para confundir o algoritmo que, ele sabia, já o tinha marcado como um intruso. O silêncio no corredor era pontuado pelo som abafado de uma orquestra de câmara vinda do salão principal, onde o destino de Beatriz estava sendo enterrado sob discursos de filantropia e luxo. Ao dobrar a esquina para a ala administrativa, o sensor de movimento piscou em vermelho âmbar. A porta do escritório do Patriarca estava entreaberta — um convite silencioso que gritava armadilha.
O ar dentro da sala não tinha cheiro de livros antigos, mas de ozônio e polimento caro. Elias sentiu o peso do cofre de metal sob suas mãos, o coração batendo um ritmo frenético que parecia zombar do silêncio absoluto. Ele inseriu a combinação que Beatriz lhe confiara em uma nota cifrada. Quando a trava cedeu com um estalo seco, o vazio o atingiu como um soco. Não havia Livro Negro. Apenas um envelope pardo contendo uma única página: uma lista detalhada de seus próprios movimentos nas últimas quarenta e oito horas, incluindo o momento exato em que ele tentara, em vão, falar com o Inspetor.
— Você sempre teve um gosto peculiar por ruínas, Elias — a voz do Patriarca surgiu das sombras atrás da mesa de mogno. Ele estava parado, uma silhueta impecável contra a vidraça que dava vista para o santuário da cidade.
Elias girou, as mãos vazias. — Onde ela está?
O Patriarca caminhou até o centro da sala, ignorando a pergunta. Ele apontou para o relógio de parede, um monstro de engrenagens expostas. Com um clique metálico seco, o ponteiro dos segundos avançou, mas o dos minutos saltou violentamente, cortando vinte e quatro horas do tempo que restava.
— O tempo da sua utilidade expirou no momento em que você atravessou meu portão sem ser anunciado — o velho disse, sua voz um fio de navalha polida. — Beatriz nunca esteve aqui. Ela está onde a memória de garotos como você costuma falhar: no passado, em algum lugar que você insiste em visitar, mas não consegue alcançar. O leilão do Livro Negro foi antecipado. Você tem quarenta e oito horas antes que a história dela seja apagada.
O Patriarca sabia que ele viria. O relógio no escritório acabara de ser adiantado. Elias sentiu o suor frio escorrer pelas costas enquanto a segurança, alertada pelo Patriarca, inundava o corredor. Ele não tinha saída, exceto os jardins.
Correndo pela escuridão, Elias sentiu o peso dos drones que patrulhavam a propriedade. Ele usou um sensor de frequência que ele mesmo consertara para cegar o drone acima dele, mas o custo foi alto: o sensor queimou, deixando-o cego para a vigilância eletrônica restante. Ele saltou o muro dos fundos, caindo sobre o cascalho úmido com o tornozelo latejando.
Horas depois, ele encontrou refúgio no Cartório Distrital, um dos poucos lugares onde a tecnologia da elite ainda não dominava. A mulher atrás do balcão, com mãos manchadas de tinta, não ergueu os olhos. — Estão deletando vidas da base de dados municipal — ela murmurou.
Elias apoiou as mãos na madeira gasta. — Eu vim pelo registro de propriedade de 1998.
A mulher parou o carimbo no ar e finalmente o encarou. — Eu sei quem você é. Beatriz está viva, mas o preço da informação que você busca é a sua existência legal. Você quer ser um fantasma ou quer ser um herói morto?
O relógio corria. O prazo era uma lâmina no pescoço, e a cada segundo, o silêncio ao redor de Beatriz se tornava uma tumba definitiva.