Além do Céu de Neon
O Vulture-7 não caminhava; ele gemia. Cada servomotor, sobrecarregado pela fusão de dados brutos do 6º andar, protestava contra a gravidade artificial do 7º nível. A integridade estrutural piscava em um vermelho alarmante: 14%. O sistema de segurança da Academia, como um cão de caça ferido, tentava desesperadamente injetar um código de expurgo para desmantelar o frame. Kaelen sentia a pressão não apenas no metal, mas na própria rede neural do cockpit: a rede central da Torre tentava reescrever sua autoridade.
“Renata, se o sistema de reatribuição conseguir o controle, eles não vão apenas nos descartar. Eles vão apagar nossa existência da rede”, Kaelen sibilou, seus dedos voando sobre os painéis hápticos, agora brilhando com o azul gélido do acesso de Nível Raiz.
Renata, dentro de seu próprio frame, mantinha a guarda na zona de transição. “O esquadrão de elite está a menos de dois minutos. Eles estão travando todas as saídas físicas. Se não subirmos agora, seremos encurralados.”
Kaelen não respondeu. Ele mergulhou no registro de batalha oculto que encontrara nas profundezas da Torre. Não era apenas um log; era a chave mestra. Enquanto a segurança tentava purgar sua conexão, Kaelen inverteu o fluxo. Ele não lutou contra o firmware; ele o absorveu. Com um comando mental, ele forçou o sistema a reconhecer o Vulture-7 como uma autoridade superior. O tremor cessou. A assinatura de energia, antes errática, estabilizou-se em um tom autoritário e inquestionável.
A Sala do Núcleo do 7º andar era um vácuo de silêncio absoluto. À sua frente, o ar condensou-se em uma geometria impossível: o Avatar da Torre. Não era um Mech, mas uma projeção de dados que refletia, em tempo real, a vida de Kaelen.
— Usuário Raiz identificado — a voz da entidade vibrou na estrutura do cockpit. — Sua existência é uma falha de sistema. Você é um sucateiro. Sua ascensão desestabiliza a hierarquia desta cidade.
Kaelen sentiu o suor escorrer, o peso da dívida convergindo para aquele momento. Ele injetou o código de corrupção extraído da Academia. A prova era irrefutável: logs de pilotos descartados e firmware projetado para falhar.
— Eu não sou uma falha — Kaelen respondeu. — Eu sou a evidência de que o sistema de vocês não é meritocracia; é um esquema de liquidação humana. Analise os dados. Veja a fraude que a Diretora Viana instalou em cada andar.
O Avatar hesitou. O silêncio esticou-se até que a Torre, processando a verdade, começou a revogar as credenciais da Academia. Em toda a metrópole, as telas de ranking piscaram, exibindo a corrupção de Viana em tempo real. A Diretora, em seu escritório, viu suas permissões administrativas dissolverem-se como cinzas.
— Você é apenas um erro de arredondamento, Kaelen — a voz de Viana ecoou via rádio, distorcida pela interferência. — Código Omega-9. Executar autodestruição.
Kaelen sorriu. Ele não bloqueou o comando; ele o absorveu. — O sistema não responde mais a você, Viana. O privilégio de autoridade foi revogado.
A segurança da Torre, agora sob o comando de Kaelen, cercou o escritório de Viana, removendo-a enquanto a cidade inteira assistia à queda da guardiã da ordem. Kaelen estava no topo, mas a vitória não trouxe o alívio que esperava.
No observatório do 7º andar, ele desceu do Vulture-7. O holograma central, alimentado pelo acesso Raiz, exibiu um mapa global. Pontos de luz espalhados por todo o continente brilhavam no horizonte. Eram outras Torres. Dezenas delas, escondidas sob o mesmo véu de neon e promessas de ascensão. A dívida, a humilhação, a reatribuição forçada… tudo fazia parte de um filtro maior. A cidade não era o destino; era apenas o celeiro. Kaelen olhou para o horizonte além das paredes de aço, percebendo que a escalada real estava apenas começando. Ele preparou o Vulture-7. O jogo era muito maior do que o ranking da Academia, e ele pretendia quebrá-lo por inteiro.