Limites de Aço
O Vulture-7 não deveria estar queimando. O metal da cabine emitia um calor sibilante, um lamento metálico que Kaelen sentia reverberar diretamente em seus nervos. No display de pulso, o alerta piscava em um vermelho agressivo: ERRO DE INTEGRIDADE: ESTRUTURA NÃO RECONHECIDA.
— Cala a boca — Kaelen sibilou, socando o painel de controle. A reunião com Viana não fora apenas uma convocação; fora uma sentença. Ele agora sabia que a dívida de sua família não era financeira, mas um protocolo de controle de hardware, uma coleira invisível destinada a mantê-lo ancorado enquanto o protótipo Vulture-7 era drenado pela Torre. Os sensores de vigilância do hangar giraram, focando na baia de Kaelen. O som de botas metálicas da segurança ecoou pelo corredor. Ele tinha menos de 13 horas antes da reatribuição forçada. Não havia tempo para hesitar.
Com um movimento brusco, Kaelen forçou o processador militar, recém-instalado, ao limite. Ele injetou o código que roubara do setor 4, camuflando a mutação estrutural do frame dentro do fluxo de dados da própria Torre. O Vulture-7 rugiu, não como uma máquina, mas como algo que despertava. Sem olhar para trás, Kaelen iniciou a sequência de lançamento para o 5º andar.
Assim que seus pés tocaram a plataforma metálica, o 5º andar se reconfigurou. Não era um campo de batalha estático; era uma armadilha de precisão cirúrgica. As unidades de supressão, silhuetas negras com sensores em arco, anteciparam cada microajuste de seus propulsores.
— Kaelen, eles têm nossos dados do 3º andar! — a voz de Renata falhou no canal privado. — Cada movimento seu está sendo processado em tempo real. Eles criaram contramedidas específicas para o seu estilo de luta.
Kaelen sentiu o calor do motor subir para níveis críticos. Ele tentou uma manobra de esquiva, mas um feixe de plasma cortou o espaço onde ele estaria um microssegundo depois. A técnica da Academia era uma sentença de morte. Ele soltou os limitadores de fábrica, forçando o processador militar a bombear energia bruta nos pistões. O Vulture-7 distorceu, o chassi fundindo-se em uma liga nova, mais densa.
Sob fogo cerrado, com o sistema de resfriamento em colapso, Kaelen realizou uma cirurgia em movimento. Ele não tentou consertar o sistema da maneira convencional; ele fundiu o módulo militar ao chassi, ignorando o vapor que queimava sua pele. A sobreposição de dados do registro oculto projetava a alma da Torre sobre sua visão. Ele não estava mais lutando contra a máquina; ele estava lendo seu código-fonte.
— Vamos ver se você consegue processar isso — murmurou Kaelen.
O Vulture-7 rompeu a barreira de contenção. A transmissão ao vivo, que antes exibia sua queda iminente, saltou para uma resolução cristalina. Para toda a cidade, o impossível se tornou visível: um frame sucateado, agora uma anomalia de classe superior, aniquilando as unidades de elite da Academia com uma fluidez predatória. Na central, a Diretora Viana levantou-se, pálida. Ela tentou cortar o sinal, mas o rastro de dados já estava exposto. Kaelen não apenas venceu; ele provou que o sistema da Academia era obsoleto. O 5º andar estava limpo, mas, conforme a poeira baixava, Kaelen percebeu que o verdadeiro desafio começava agora. A elite da Academia não enviaria mais drones; eles viriam caçá-lo pessoalmente. O próximo andar já brilhava no horizonte, um abismo de novos perigos, e ele tinha a chance de expor a corrupção da Academia para toda a cidade.