Sincronia Mortal
O laboratório de Sora não era mais um refúgio; era uma câmara de pressão prestes a colapsar. O 'Sucateiro', outrora uma carcaça orgulhosa, jazia sobre o berço de reparos como um animal abatido, seus circuitos internos expostos em espasmos de faíscas azuis. O módulo experimental, o coração proibido daquela máquina, pulsava sobre a bancada com uma frequência que fazia os dentes de Kaelen vibrarem.
— O lockdown não é apenas um protocolo de segurança, Kael — Sora murmurou, os dedos voando sobre o terminal. Ela não olhava para ele; seus olhos estavam fixos na cascata de erros que inundava o sistema. — Eles cortaram a rede externa. O setor 4 está isolado. Eles não querem apenas o frame; querem apagar qualquer rastro do que você extraiu no Nível 6.
Kaelen forçou-se a levantar. Cada movimento era uma lembrança da dor neural que o módulo lhe impusera. O holograma de seu ranking, 402, flutuava no ar, um lembrete cruel de sua posição precária. Ele era uma anomalia estatística, e o Diretor Hektor, o arquiteto daquela ordem, não tolerava variáveis fora de controle.
— Quanto tempo? — a voz de Kaelen saiu como um estalo de metal seco.
— O protocolo de auditoria foi antecipado. Dez horas para a purga total — Sora parou, a luz azul do módulo refletindo em seu rosto pálido. — Kael, isso aqui não é uma peça de reposição. É uma chave de decodificação. Eu desenhei a arquitetura básica, mas as modificações... elas são de uma era anterior à fundação da Torre. Você não hackeou o Nível 6. Você acessou o código-fonte original.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som abafado de botas magnéticas ecoando nos corredores. O esquadrão de limpeza de Hektor não estava ali para negociar. Eles estavam ali para deletar.
Kaelen sentiu a conexão neural ainda latente em seus nervos. Ele estendeu a mão para o módulo, ignorando o aviso de sobrecarga. A dor foi imediata, uma descarga elétrica que subiu por sua espinha como agulhas em brasa. Através da interface, a Torre deixou de ser andares de metal e tornou-se um oceano de código-fonte. Hektor não era o dono daquela máquina; era apenas um carcereiro de baixo nível, mantendo os prisioneiros no escuro.
— Eles estão na porta — Sora avisou, a voz trêmula, mas firme.
Kaelen agiu. Ele não tentou consertar o frame; ele usou o módulo para hackear o sistema de ventilação do setor. Com um comando mental, ele sobrecarregou os dutos de ar, transformando o laboratório em uma câmara de pressão térmica. Uma explosão de vapor e ruído metálico engoliu o ambiente enquanto o esquadrão forçava a entrada. Eles escaparam pelos dutos, rastejando pelo coração da Torre, agora oficialmente marcados como terroristas de dados.
Escondidos nos níveis inferiores, a dupla realizou a manobra final. Kaelen conectou o módulo diretamente à rede de dados da Torre, ignorando o contador de dívida que disparava para valores astronômicos em seu visor.
— Abre o canal — ordenou Kaelen.
A tela principal do laboratório explodiu em uma cascata de números brutos e logs de corrupção do Nível 6. Milhões de espectadores através da metrópole viram a verdade sobre o processamento de dados da Torre. Kaelen Vane, o piloto falido, tornou-se o novo herói da resistência, mas o preço foi imediato: sua dívida agora era a arma que o Conselho usaria para caçá-lo. O lockdown isolou o laboratório, deixando-os no escuro, cercados por um sistema que não podia mais permitir que eles existissem.