O Peso da Ascensão
O brilho metálico do troféu de participação na arena ainda parecia um insulto diante do saldo negativo piscando em vermelho neon no HUD do Sucata-09. Kaelen desceu da cabine, as pernas trêmulas pelo esforço de pilotar com a precisão sobre-humana que o log de batalha ancestral lhe emprestara. O ar nos boxes de manutenção, denso com o cheiro de ozônio e óleo queimado, não trazia o perfume da glória, mas o odor de uma armadilha que se fechava.
— Dez mil, Kaelen. O sistema administrativo da Torre é uma sanguessuga de precisão cirúrgica — Valéria surgiu debaixo de uma carcaça de chassi, limpando as mãos engorduradas em um trapo imundo. Ela não olhou para ele, focada no terminal que exibia a fatura final. — Eles não apenas cobraram a taxa de entrada; incluíram uma 'taxa de auditoria de integridade de frame'. Silas quer saber como o seu Sucata-09 conseguiu rastrear o Vanguarda-Prime sem o auxílio dos satélites da Torre.
Kaelen sentiu o estômago revirar. O brilho da vitória, a sensação de ter superado um oponente de elite, foi substituído pelo peso de uma dívida que crescia mais rápido que seu fôlego. O Sucata-09 estava em frangalhos, com os atuadores hidráulicos gemendo sob o peso das tensões que o log proibido impusera à estrutura obsoleta. Se ele não conseguisse as peças de reposição antes do amanhecer, a Torre teria base legal para confiscar o frame por 'risco operacional'.
— Eles estão nos vigiando, Valéria — Kaelen murmurou, a voz rouca pela exaustão. — Silas instalou um algoritmo de monitoramento forense nas saídas de energia. Se eu ligar o motor principal, eles saberão exatamente onde estamos.
— Então não ligue — ela respondeu, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa. — Mas se você ficar parado aqui, a dívida vai devorar sua família antes que você consiga chegar ao próximo portão.
Antes que ele pudesse responder, o som metálico de botas de choque ecoou no corredor estreito. Três cobradores da guilda de Silas, vestidos com o uniforme cinza-chumbo da vigilância da Torre, bloquearam a entrada. O líder, um homem de mandíbula quadrada e uma cicatriz vertical no olho, deu um passo à frente, ignorando a presença de Valéria.
— Kaelen. Você tem uma dívida de ascensão vencida — o homem disse, sua voz desprovida de humanidade. — O Comandante Silas oferece uma oportunidade: entregue o log de dados do seu frame e o confisco será suspenso. Ou sua família será despejada do Nível 2 até o anoitecer.
Kaelen sentiu o sangue ferver. Ele não pensou; ele reagiu. O log ancestral em sua mente disparou, projetando uma trajetória de combate em sua visão periférica. Ele não precisou de um mech para lutar; ele usou a alavanca hidráulica da oficina, aplicando uma manobra de desequilíbrio que aprendera no log, derrubando o cobrador líder com uma precisão cirúrgica. Os outros dois recuaram, surpresos pela velocidade antinatural do sucateiro.
— Diga a Silas que a dívida será paga no topo — Kaelen rosnou, o olhar fixo no cobrador caído.
Quando os homens se retiraram, o silêncio que se seguiu foi pesado. Kaelen sabia que não havia mais volta. Ele partiu para o Portão de Triagem do 5º andar, o Sucata-09 rangendo sob a pressão da gravidade crescente. Ao chegar, a voz sintética da Torre ecoou, fria e mecânica: — Acesso negado. Débito residual: 10.000 créditos.
Silas apareceu no terraço elevado, observando-o com uma calma predatória. — Você chegou longe, Kaelen, mas a Torre não é uma escada para sucata. É um filtro.
O Comandante enviou uma notificação para o HUD de Kaelen: um desafio oficial de duelo de ranking. A vitória prometia o prêmio exato para cobrir a taxa, mas havia uma cláusula em letras pequenas: o duelo ocorreria na arena de alta gravidade, onde um frame não adaptado seria esmagado em segundos. Kaelen aceitou sem hesitar, sabendo que a única forma de subir era através do colapso da hierarquia que Silas tanto tentava proteger.